melissa stabile

12/03/2018, 12:27

CONFORTÁVEIS

Por Paula Parisot.

 

Melissa Stabile e os Confortáveis entraram juntos na minha vida. Estávamos em 2013. Ano anterior ao ano em que nada poderia voltar a ser como era antes – para ele, para mim, mas principalmente para meus filhos que na época tinham 2 anos. E pancada na cabeça dos meus filhos é em mim que dói. Então, juro, tenho um pouco de raiva de ter aceitado escrever sobre os Confortáveis. Mas, como dizer a Melissa, agora, que na verdade, era melhor não escrever sobre eles porque falando deles de alguma forma terei que falar sobre mim.

Não sabíamos de nada do que viria, nunca sabemos, ou sabemos e talvez por isto – volta e meia – eu me assustava e dizia ao meu psicanalista que tinha a sensação de que algo terrível aconteceria.

Nos esquecemos de que a vida é breve, que cedo ou tarde a morte chega.

“Mãe, porque você chora se tudo que nasce um dia morre?”

Muitas das minhas tardes de 2013 passei na casa da Melissa.

Deitava, sentava, me jogava sobre uma confusão de almofadas de todas as cores, tamanhos, formas, texturas. Almofadas estas que muitas vezes se tornavam o centro da nossa conversa porque Melissa ainda buscava, não sei se entender, sentir, saber – penso que tudo junto como quase sempre é no processo criativo – o que eram e porque ela fazia aquelas almofadas que se chamavam Confortáveis?

Confortáveis. Este nome logo me agradou – por ser um adjetivo dos dois gêneros. Poderiam ser os Confortáveis ou as Confortáveis. Aliás, vale pensar, porque nos referíamos às almofadas como os Confortáveis? Este seria assunto para um outro texto.

Melissa costurava os Confortáveis enquanto nós conversávamos. Eu gostava do som que fazia a máquina de costura, gostava dos tecidos coloridos espalhados, alguns alfinetados, outros já alinhavados, gostava das espumadas dentro das grandes sacolas plásticas, gostava de estar ali, gostava de escutar e falar com Melissa, gostava de estar sobre os Confortáveis e mais ainda gostava de ver os novos Confortáveis que surgiam. Sim Melissa fazia um atrás do outro mesmo não sabendo muito bem para onde ia.

Chegou o fim do ano e depois veio o ano novo como tem de ser. Os dias vão chegando assim como chegou o dia que fez com que tudo fosse diferente.

“A vida é mortal”, disse Clarice Lispector, “e nós mantemos este segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém”.

Raiva, revolta, medo, tristeza, ansiedade, desespero, descontrole, gritos, lágrimas.

 O futuro só faz sentido enquanto se vive?

Voltei a frequentar a casa da Melissa e os Confortáveis. Voltei a ver o cigarro se acender na minha boca depois de anos sem fumar.

Outro dia chegou. Era a primeira exposição dos Confortáveis. Os meus Confortáveis, assim eu os sentia, porque, afinal, eram só meus até então, nunca os havia dividido com ninguém. Somente umas poucas vezes com o gato Peixoto ou a gata Lola ou o gato Ulisses, que era vivo e agora está morto. Os Confortáveis eram os mesmos, mas eram outros. Eram alegres, passavam de mão em mão, crianças pulavam sobre eles e adultos se esparramavam, sentando-se, deitando-se. Os Confortáveis eram travesseiro, brinquedo, enfeite de cabeça, cachecol, faixa de cintura, naninha de dormir. Meus filhos se juntaram a outras crianças e fizeram guerra de Confortáveis. Por sorte os Confortáveis eram acessíveis e muitos de nós tivemos a possibilidade de ter um. Meus filhos queriam muito levar um para o pai. E levamos o Confortável Rosa Chiclete. No par ou ímpar minha filha levou a melhor. Um jogo. A vida. Viver é absurdo.

Meses depois. Melissa e eu marcamos de ir a Bienal de São Paulo. Antes de entrarmos tocou o meu telefone. Não tem mais jeito, é uma questão de semanas. Desesperei-me, um desespero que já vinha sendo sentido há dois anos. Melissa me segurou e fomos embora do Ibirapuera. Ela me levou até a sua casa. Ficamos ali. Deitei-me sobre um Confortável enorme zebrado, ao meu redor Confortáveis menores de diversas cores, tamanhos, texturas, formas. Fechei os olhos, dormi.

Antes de eu ir embora Melissa me deu um Confortável azul marinho de veludo e disse para eu levar para o pai dos meus filhos de presente. Agradeci. O Confortável era azul marinho de veludo. A cor! A forma! O tecido! O Confortável me pareceu a morte. Senti que a morte estava nas minhas mãos, mas meus filhos festejaram ao ver o que eu carregava.

“Mamãe, você esteve com a Melissa? ”

Quiseram dar ao pai, aquilo que eu não queria dar.

No dia seguinte levamos o Confortável para o pai que ficou feliz com o presente. Passamos o dia juntos. Só nós quatro. Pai, mãe e filhos. O pai já tinha dificuldade para caminhar, os pensamentos, a fala, tudo se embaralhava, eu levava o Confortável azul marinho de veludo numa das mãos, abracei o pai dos meus filhos, disse que o amava, que cuidaria dos nossos filhos.

Por motivos que não quero falar aqui nunca mais voltei a ver o pai dos meus filhos. Pouco depois ele morreu.

Não consigo desassociar os Confortáveis destes anos da minha vida, por isso depois de aceitar o convite da Melissa e me sentar para escrever senti raiva, mas agora sinto força e amor, eu estou viva e posso falar com fantasmas.

Olhando para trás, olhando o trabalho de Melissa, o caminho percorrido, a pesquisa, as descobertas, os Confortáveis que agora tem ganchos que fazem com que eles possam se conectar uns aos outros e também que possam eles se conectar a outros objetos, ou a seres-vivos tornando os Confortáveis prótese, corpo acoplado ao corpo vivo, que pulsa e respira. Confortáveis que podem ser pendurados na parede, presos ao teto, que podem estar no chão ou sobre uma mesa, formas orgânicas e incertas, horizontal/ vertical, objeto/figura, dentro/fora, acolhe/repele, vestimenta/prótese/corpo, feminino/masculino, público/privado. Eles são a recusa da linguagem, o lugar do sentimento, que exige mais que somente a visão, que muitas vezes limita e aprisiona. Como disse Luce Irigaray, “na nossa cultura a predominância da visão sobre o olfato, o paladar, o tato e a audição gerou um empobrecimento nas relações corporais. Enquanto a visão domina, o corpo perde a sua materialidade.” E é justamente isso que os Confortáveis nos convidam a fazer: ir além da visão. Eu até ousaria dizer que os Confortáveis não existem sozinhos, para serem Confortáveis e não apenas almofadas, eles precisam de mim e dos gatos e das pessoas que por eles passaram e passam deixando rastros.

Serão os Confortáveis mais que objetos? Ou serão apenas objetos? E faz diferença? Eu amo certos objetos mesmo que eles não me amem de volta.

Melissa, Melissa Stabile, os Confortáveis, as Confortáveis, eu e todos, vamos, juntos, amo vocês.

 

Foto: Cassia Tabatini

Texto: Paula Parisot

Modelos:  Lenora de Barros, Lau Neves, Marcelo Fagge e Paula Carvalho

Casting: Daniel Ortega