Pivô entrevista Guerreiro do Divino Amor

09/05/2019, 18:37

Leandro Muniz – Gostaria que você começasse falando sobre sua formação.

Guerreiro do Divino Amor – Minha formação acadêmica foi em arquitetura e acho que isso ainda é muito presente no trabalho. A formação da escola de Grenoble, na França, era bem experimental e sensível, ligada à observação do entorno, do corpo, da luz e dos materiais para entender os espaços que compõem a cidade, desde o micro, até uma escala macro, pensando em como esses níveis se relacionam. Ao mesmo tempo, havia um trabalho sobre as memórias afetivas que os lugares trazem, as lembranças e tudo que o espaço carrega além de sua materialidade, num plano simbólico e histórico.

No final dos ano 1990 e começo dos anos 2000, eu frequentava ocupações, uma cena techno e punk. Isso influenciou meu trabalho e foi importante na minha formação política, por encontrar alternativas de construção e vivências da cidade.

Já o mestrado, em Bruxelas, foi um curso chamado Condição urbana contemporânea, focado no estudo da influência que fenômenos como turismo de massa e o geomarketing tinham na construção da cidade. Nesse período, em 2005, comecei o Atlas Superficcional, projeto que desenvolvo até hoje. Pude por em prática todas as ferramentas que eu tinha de análise teórica em uma forma plástica: maquetes, publicações, pequenos filmes e desenhos, que foram evoluindo com o tempo.

LM – Você participa da organização do bloco de Carnaval Bunytos de Corpo, no Rio de Janeiro. Como você pensa sua atuação no bloco em relação ao seu trabalho?  

GDA – Meu marido Gigante César trouxe o bloco de Recife, porque ele também é o puxador. Quando o conheci, logo fiz parte, porque tinha tudo a ver com meus interesses – eu adoro a ideia de fazer ginástica na rua vestindo lycra. Comecei a fazer os teasers e vinhetas para o bloco e experimentei muito com animação, com essa estética de colagem, deboche e tecidos de cores chamativas. Também faço as projeções e os figurinos.

É vinculado com meu trabalho, mas existe uma diferença sobre como cada um circula e o conteúdo também: Carnaval é deboche e fantasia, nos trabalhos existe um fundo mais crítico. Ambos têm um lado político, porque, em momentos conservadores, em geral há problemas com a questão da ocupação das ruas, então o Carnaval tem um lugar de resistência também. Então a energia de criação, esse “fogo” é o mesmo, mas existe uma diferença de objetivos.

LM – A Batalha de Bruxelas é uma revista com um editorial basicamente preto, branco e vermelho, com fotos apropriadas ou que são registros de performances. Um trabalho mais austero material e formalmente do que os backlights e as revistas que você desenvolveu posteriormente na série Atlas Superficcional. Como se deu a incorporação de tantos elementos, como lâmpadas, cores, recursos tecnológicos e montagens ao longo do tempo?

GDA – Por uma lado existe uma questão técnica, porque aquela revista foi a primeira vez na vida que usei Photoshop. Só em 2013 que fui realmente aprender efeitos especiais em um curso específico, o que foi muito importante para a evolução do trabalho. Minha pesquisa, de certo modo, acompanha as mudança de tecnologias: na época em que estudei, era tudo feito pelo desenho, quase não tinha computador.

Mas, como falei antes, eu estava nesse meio de ocupações, então o trabalho se inspirava em panfletos políticos, fanzines e também revistas sensacionalistas – um repertório do qual foi se distanciando formalmente, ainda que guarde o mesmo fundo ideológico. Essa linguagem mais extravagante que ele passou a ter abre um pouco mais as leituras, as coisas ficam mais sedutoras e ambíguas. Em um panfleto, a comunicação verbal é muito direta. As sobreposições de imagens e animações remetem a muitas coisas e abrem muitas portas de percepção atingindo o inconsciente coletivo e relacionando em uma narrativa complexa tanto fenômenos globais quanto acontecimentos específicos.

LM – No projeto Superficções você constrói backlights e revistas a partir de imagens e elementos específicos de cidades como Bruxelas, São Paulo e Rio de Janeiro. Você poderia comentar esse projeto?

GDA – O objetivo final é criar uma espécie de “enciclopédia superficcional”, um projeto mundial que vou organizando de acordo com minhas experiências e possibilidades de viabilização. O projeto começou em Bruxelas, porque morava e estudava lá, o segundo capítulo foi no Rio, cidade em que eu já tinha tinha um envolvimento forte, foi lá que nasceu a ideia de superficção, acho que é o lugar mais superficcional que eu conheça. Depois tive a oportunidade de desenvolver o trabalho sobre São Paulo durante minhas residências na FAAP e no Pivô. Os projetos precisam de muito tempo de pesquisa e convivência com o lugar para que eu possa entender as questões que são relevantes e gerar a “superficção”.

Em São Paulo, mesmo quando conhecia pouco a cidade, eu já tinha a vontade de trabalhar com a ideia de “cidade máquina” e queria estudar melhor essa metáfora. A Cosmogonia Supercomplexa Metropolitana Expandida se constrói em volta da roda da fortuna, que é um ímã, mas ao mesmo tempo tem uma força centrífuga que expulsa as pessoas.  No meio coloquei uma figura bicéfala do Silvio Santos com o João Dória, como um tótem desse universo superprodutivista e impiedoso. Eu assistia muito o programa do Silvio Santos e da Xuxa quando criança, e ficava fascinado, acho que eles representam bem essas duas cidades antagônicas. No Rio, usei a rosa dos ventos como “elemento flutuante”, em função da alternância das sensação de medo, sensualidade, natureza e desenvolvimento difundidas pelas midias e essa aura nebulosa que a cidade tem. Enfim, escolho elementos simbólicos que vão se aglomerando e se relacionando.

LM – Títulos como Cosmogonia Supercarioca ou Superficções e o caráter simbólico das composições me fazem pensar em uma dimensão alegórica do seu trabalho. Como você pensa as ideias de alegoria e cosmogonia?

GDA –  O trabalho parte de uma vontade de entender relações entre diferentes tempos, espaços, grupos sociais e camadas de histórias locais e mundiais, num trânsito entre a escala micro das relações entre as pessoas e a escala da organização da cidade, do país e do mundo. Por isso o título “cosmogonias”, por um desejo de entender movimentos de uma escala “cósmica”, mas na Terra.

Também tenho pensado sobre alegorias, porque estou desenvolvendo um trabalho sobre a Suíça onde reinterpreto figuras alegóricas do próprio lugar, como deusas e seres mitológicos. Procuro testar meu trabalho em diferentes contextos para ver até que ponto esses símbolos se sustentam. As revistas, inclusive, foram pensadas para isso: entrar nos detalhes das cosmogonias com textos para  explicar do que afinal se trata, inclusive para um público de outros lugares que não tem conhecimento dos arquétipos e simbologia específicas à um contexto geográfico que utilizo. É uma parte mais científica do trabalho.

Também existe uma relação do trabalho com os carros alegóricos  – para falar de Carnaval novamente. São uma inspiração muito grande por levar narrativas complexas às ruas. Os painéis seriam como um carro  alegórico chapado em uma superfície bidimensional, ou o filme pode ser visto como desfile, cada capítulo seria uma ala. A próxima etapa do trabalho seria construir esse ambiente imersivo. O trabalho tem essa dimensão intelectual e política, um fundo acadêmico mas ao mesmo tempo tem uma vocação popular, acho que o trabalho com alegorias traz bem essa combinação à tona.

LM – Você produz revistas, vídeos e backlights a partir de imagens apropriadas e articuladas em procedimentos complexos de montagem. Os títulos dos trabalhos são sempre acompanhados do prefixo “super” que dá a ideia de excesso, mas também lembra ficção. Como você pensa o procedimento de montagem e sua relação com a ficção?

GDA – No começo era feito de um jeito bem tosco, com colagens a partir de revistas que depois eu xerocava, ainda na época da faculdade. Conforme a tecnologia evoluiu eu fui junto. Minha ideia é criar uma “superficção” a partir de fragmentos da realidade, porque essa ficção científica toda já está no mundo.

A ficção também facilita o acesso, ela permite falar de muitas coisas com mais facilidade, com um público maior e abre mais camadas de leitura . As imagens que eu uso vêm de canais populares, então o trabalho tem esse reconhecimento  concreto e imediato, mas o uso da montagem e da colagem, nos painéis principalmente, gera leituras diversas, às vezes contraditórias, que vão além do que eu planejei e é isso que me interessa.