Pivô entrevista Diane Lima

17/07/2020, 17:03

Castiel Vitorino Brasileiro, Corpo-Flor, AfroTranscendence 2016, Tempo de cura. Curadoria de Diane Lima, Red Bull Station. Foto: Alile Dara Onawale.Castiel Vitorino Brasileiro, Corpo-Flor, AfroTranscendence 2016, Tempo de cura. Curadoria de Diane Lima, Red Bull Station. Foto: Alile Dara Onawale.

Os dias antes da quebra é o título do projeto que dá ignição ao Pivô Satélite #1. A exibição online tem como ponto de partida o trabalho de um grupo de artistas racializades e dissidentes que já especulavam e denunciavam o estado de fratura social vivenciado de forma ainda mais contundente após a pandemia. Durante os próximos quatro meses, Rebeca Carapiá (BA), biarritzzz (PE), Diego Araúja (BA) e Raylander Mártis dos Anjos (MG) irão ocupar a nova sala de projetos digital hospedada no site do Pivô . A instalação “Para-raios para energias confusas”, de Rebeca Carapiá, inaugura o projeto no dia 24 de julho. Os dias antes da quebra é fruto das práticas curatoriais em perspectiva decolonial exploradas na pesquisa da curadora independente, crítica e pesquisadora Diane Lima. Lima atualmente integra a equipe curatorial da 3ª edição de Frestas – Trienal de Artes do SESC-SP. Desde 2018, ela assina a curadoria do Valongo Festival Internacional da Imagem.

 

Leo Felipe: Ciência e arte foram capazes de antever a quebra, ao passo que no imaginário político e econômico isso não aconteceu (o que nos faz pensar que essa incapacidade está na própria causa da quebra). Agora é evidente que a ciência tem/terá um papel decisivo na construção do que virá depois da quebra. E qual o papel da arte nesse novo cenário? O que artistas com experiência em “adiar a iminência das suas próprias quebras” têm a nos mostrar? 

 

Diane Lima: Exatamente, a arte e a ciência como instituições modernas que operam nos regimes das disciplinas civilizatórias do colonialismo e portanto, desse mesmo capitalismo que nos trouxe até aqui, seguirão cumprindo com o papel de criar as demandas para garantir as suas próprias existências. De modo que servem nesta reflexão, para expor as fronteiras da contradição ética a qual todas nós fazemos parte como classe artística-trabalhadora: a arte como cadeia produtiva não nos salvou e nem irá nos salvar. Tão pouco é possível para nós falar desse mesmo sistema da arte como espaço de liberdade, já que central tem sido o nosso esforço em expandir seus limites e estruturas. Assim, que se tomamos as manifestações artísticas a partir de cosmologias não-eurocêntricas, essas práticas desde sempre têm nos servido como espaço de negociação, segredo e luta. É isso que nos revela por exemplo, a história da arte afro-brasileira e as poéticas e políticas de ressignificação e enunciação que artistas, curadorxs, pesquisadorxs e mestrxs que habitaram tempos e espaços históricos distintos, vêm articulando e nos deixando como legado. Nessa perspectiva, acho que se há um novo cenário para nós o papel da arte não será novo: continuaremos criando espaços de coletividade, tecnologias de sobrevivência, estratégias de fuga e negociação ora às margens, ora no centro desses mesmos espaços institucionalizados.

Sendo assim, como epílogo de uma história composta por muitxs artistas e que se estende em outros capítulos, “Os dias antes da quebra” traz para o Pivô Satélite, uma reflexão propositiva sobre como o abalo viral e atomizado na estrutura linear e produtiva do tempo ganhou forma à partir do coronavírus. Questionando as relações entre esses contínuos e descontínuos já em disputa em uma narrativa historiográfica, gosto de pensar essa exposição como um olho que sugere um movimento de retorno para o que estava sendo previsto, especulado e denunciado antes da pandemia. Com isso, a exposição recusa os discursos universalistas que negam o histórico de extrema vulnerabilidade e precariedade que já se fazia norma de forma expressiva na vida de determinados grupos sociais, ao mesmo tempo que amplia o debate sobre como as hierarquias de opressão que definem a inseparabilidade dos marcadores de classe, raça, gênero e sexualidade se escancaram nessa crise sanitária, precarizando ainda mais os acessos aos artistas-trabalhadorxs que seguem tentando se manter como classe artística.

Se o momento da pandemia está nos levando a viver nos limites do bolso e da carne, a exposição documenta e apresenta um conjunto de ferramentas, rotas de fuga e estratégias de emancipação coletiva que vêm sendo articuladas nas pesquisas e obras de quatro artistas contemporâneos. São os “Pára-raios para energias confusas”,  esculturas de ferro, cobre e modelagem 3D que surgiram como objetos de proteção durante um sonho da artista Rebeca Carapiá; a urgência em dialogar na linguagem comum que se manifesta através de pixels low-fi, “armas máximas da geopolítica local”, nas “Pedagogias do Meme” da biarritzzz; a busca por “criar um idioma que não nasça do trauma e da violência” através do “Laboratório Internacional de Crioulo” de Diego Araúja; e do interesse pela “reunião e ajuntamento de pessoas a partir dos estudos sobre os arrecifes de corais” na “Produção de Coralidades” de Raylander Mártis.

Malu Avelar, Sauna Lésbica. Valongo Festival Internacional da Imagem 2019, O melhor da viagem é a demora. Curadoria de Diane Lima. Foto: Marina LimaMalu Avelar, Sauna Lésbica. Valongo Festival Internacional da Imagem 2019, O melhor da viagem é a demora. Curadoria de Diane Lima. Foto: Marina Lima

LF: O objetivo do Pivô Satélite é contribuir para a criação de uma rede de apoio à produção artística brasileira neste momento adverso. Talvez haja ainda muita gente, dentro e fora do circuito das artes visuais, que não tem ideia da precarização econômica de uma parte significativa da classe artística local. De que maneiras essa rede pode ser fortalecida?

 

DL: Em 2018, publiquei um texto na Revista Internacional de Direitos Humanos, a convite da editora da edição, a filósofa Sueli Carneiro, onde elaborei o conceito do que seria uma prática curatorial em perspectiva decolonial ou anti-racista. Este conceito diz que uma prática curatorial em perspectiva decolonial ou anti-racista é aquela que leva em consideração nossas perspectivas de conhecimento, performando seu discurso no campo estético mas também instaurando uma ética nas estruturas institucionais. Desde lá, venho esculpindo essa definição mas acho que ela continua me ajudando a pensar para além do identitarismo já que consegue sistematizar as experiências que tive quase como um manual prático para implementação de políticas institucionais e também, como um conjunto de estratégias de sobrevivência para nós curadorxs e artistas.

Quando falamos em rede de apoio, faço essa introdução pois vejo que aqui no Pivô Satélite, o nosso desafio é continuar performando essa ética ainda que concordando com Tiganá Santana sobre a diferença que há entre justiça e justeza. Buscar negociações justas não no sentido de justiça, mas no sentido de justeza, é ao meu ver, o que acontece quando temos uma presença massiva de artistas racializados e dissidentes que acessam políticas de redistribuição com contrapartidas contratualmente coerentes e participam da cadeia de valor simbólico e produtivo da instituição ainda que conscientes, do quão assimétrica é a equação de valor do que agregam em termos éticos e conceituais, quando diluídos na dívida sistêmica que se acumula de forma impagável, no tempo.

Dito isso, penso que não saber não pode ser mais uma opção. É isso que precede qualquer possibilidade de negociação e diálogo. Em “O Nascimento da Forma” texto ainda não publicado mas apresentado em formato seminário na UFRB no final do ano passado, digo que se compreendemos que toda e qualquer iniciativa comprometida com a decolonialidade, seus exercícios, gestos e atos irá partir do pressuposto da criação de FORMAS que não existem, logo, é parte do nosso desafio, criar as condições possíveis para que o que está tentando ganhar forma no mundo atinja a sua significância.

Ou seja, a rede só pode ser fortalecida criando as condições estruturais para que qualquer movimento aconteça. Para quem quer se implicar numa agenda decolonial ou anti-racista na arte contemporânea, a primeira coisa que precisamos fazer é acabar com o discurso de que não sabemos, não conhecemos ou que não existe artistas e curadorxs negrxs. E para isso só tem um jeito: investir na dupla, educação e história. Ancorada nas pautas dos movimentos das mulheres negras das últimas décadas, esse tem sido o meu foco desde o  AfroTranscendence, projeto de 2015 e que apesar de pouco documentado, continua sendo um das coisas mais importantes que já fiz por justamente reunir história e educação dando contorno a tudo o que fiz depois.

E sou sempre enfática nessa questão, Leo, pois vejo que esse é o único modo de possibilitar que 1) uma nova geração de artistas, curadorxs e pesquisadorxs racializadxs e dissidentes continuem existindo, 2) que artistas/curadorxs/mestrxs de outras gerações sejam reconhecidxs e tenham seus conhecimentos organizados e disponibilizados e que 3) os conhecimentos daqueles que não estão mais entre nós, sejam acessados em memória mas também formalizados como história. Vou trazer uma imagem para nos ajudar a visualizar essa questão: numa fotografia sem a data do seu ano do ZUMVI, duas mulheres negras ambas sem nomes, seguram uma placa durante uma manifestação no 20 de novembro em Salvador, com a seguinte frase de protesto: por uma educação que interesse aos negros. Para quem não conhece, ZUMVI é o arquivo fotográfico coordenado pelo fotógrafo Lázaro Roberto que narra em imagens, as memórias de 30 anos de resistência negra da Bahia e a qual tive a honra de fazer a curadoria da exposição “ZUMVI- A gente se acende é nos outros”, no Valongo Festival Internacional da Imagem de 2018.

Penso que é essa relação entre educação e história, preservada infelizmente a base de tanta precariedade como é o caso desse acervo, que precisamos fomentar. É urgente organizar, documentar, publicar e inscrever historicamente as nossas produções de modo que possamos fazer dessa história nosso repertório educativo e curricular para o campo da arte mas também para outras áreas de conhecimento importantes para a formação da sociedade brasileira. E tal tarefa inclui inclusive, questionar os próprios modos que temos disponíveis de se fazer história.

Diálogos Ausentes, Itaú Cultural, 2016-2017, curadoria de Diane Lima e Rosana Paulino. A exposição foi um marco importante na história das exposições de arte afro-brasileira, sendo estudada na pesquisa "Entre o invisível e o oculto-a construção do conceito de arte afro-brasileira", do pesquisador e curador Hélio Menezes. Foto: Andre Seiti.Diálogos Ausentes, Itaú Cultural, 2016-2017, curadoria de Diane Lima e Rosana Paulino. A exposição foi um marco importante na história das exposições de arte afro-brasileira, sendo estudada na pesquisa "Entre o invisível e o oculto-a construção do conceito de arte afro-brasileira", do pesquisador e curador Hélio Menezes. Foto: Andre Seiti.

LF: O que precisa ser levado em conta quando pensamos em uma exibição online?

 

DL: Acho que importante nesse processo com a Pivô Satélite foi o entendimento sobre como podemos testar os limites dos objetos artísticos no ambiente virtual. E isso não significa traduzi-los ou convertê-los simulando o espaço físico. O desafio consiste em expandir essas materialidades sobretudo abraçando o que se produz como diferença, plasticidade e crítica quando o mundo digital e virtual se encontram. É esse ponto que estou levando em consideração nos diálogos e acompanhamentos com xs artistas já que a exposição também busca expor as contradições que existem nos marcos das poéticas e políticas de exibição considerando tanto as utopias da internet, como uma crítica ao avanço do capital tecno-normativo no século XXI. Penso que nesse sentido, é preciso ter como horizonte que a internet não faz o objeto artístico criar uma imagem de si mesmo, mas um evento de si mesmo e é por isso que é tão potente o conceito de exposição como performance que se articula através da práticas dxs quatro artistas convidadxs e definiu os critérios das obras escolhidas.

Desse modo, penso que o perigo que “Os dias antes da quebra” revela no contexto de uma exposição online,  é o que pode se alterar em termos de estrutura nas práticas de exibição com os efeitos da pandemia e quais as consequências no campo da arte para um grupo de pessoas não privilegiadas. É o que com certo humor e ironia alguns artistas também irão abordar a exemplo de Rebeca Carapiá e biarritzzz . Me assusta pensar que caminhamos para a downloadização da vida e que a pandemia gerou as condições ideais para a implantação, sofisticação e experimentação de um modo de existência capaz de alterar a forma como sentimos e habitamos o mundo em termos de materialidade física e cognitiva. Se há uma ansiedade nesta fala, provavelmente. Por outro lado, não há nada de ficção. Há por exemplo, um vocabulário se construindo e se aproximando de nós advindo da vastidão de repertório da arte digital. Tendo em vista a nossa subordinação ao lucro, é visível como o mercado já se movimenta na direção de se adaptar ao novo ambiente e isso inclui, um maior interesse por trabalhos nativos do digital e um possível distanciamento dos trabalhos nativos da arte do corpo e da terra. Ainda que haja muitos interesses em jogo e que essa ruptura não aconteça de modo tão instantâneo, há aqui um debate formal e crítico a ser feito, sobretudo quando falamos em ferramentas de acesso.

 

LF: O debate identitário/decolonial vem exercendo enorme influência nos campos político e cultural na última década – o que é extremamente positivo. No entanto, Asad Haider em Armadilha da identidade (Veneta, 2019) denuncia a captura das políticas identitárias pelo neoliberalismo, movimento que minaria a possibilidade de ação coletiva em benefício do individualismo. Como é possível articular uma luta coletiva nesta direção, sem que esta pauta seja instrumentalizada e convertida em marketing?

 

DL: Vejo que historicamente o debate sobre as políticas identitárias e a decolonialidade se relacionam, mas articulam e reivindicam pensamentos e práticas distintas, em diferentes contextos geográficos e tempos históricos. Seria preciso demorar um pouco nas linhas para traçar uma genealogia não linear que desse conta de fato de entendê-las enquanto aparato epistemológico. No entanto, a questão é que ambos projetos, como bem nos lembra Silvio de Almeida, efetivamente não tem comprometido ou estancado a sociabilidade do capitalismo e seus mecanismos de reprodução. Mesmo com todo o legado incontestavelmente revolucionário que produziram ao longo do tempo, se hoje ambas são passíveis de revisão histórica, é pela própria capacidade de atualização reprodutiva e expansiva do capital. Ou seja, pela nossa constante necessidade de reinventar práticas de fuga e tecnologias analíticas que nos ajude a diagnosticar e nomear a velocidade como se formalizam esses procedimentos de violação.

Por isso, seguimos fazendo uso de uma série de suas ferramentas teóricas e práticas imprescindíveis para a nossa sobrevivência bem como as atualizando dentro de uma série de pensamentos capazes de olhar criticamente sustentando as contradições que precedem a nossa condição de viver no aqui-agora. Negociando a nossa força de trabalho e a nossa vitalidade para modificar as estruturas, percebo que o importante tem sido refazer as nossas próprias perguntas.

 

LF: Quem são as/os pensadoras/es e projetos de referência mais importantes hoje para entendermos o que está em jogo quando falamos de racialização e dissidência sexual e de gênero?

 

DL: Além das pessoas que já citei, todas as minhas palavras estão embebidas numa extensa lista bibliográfica como os pensamentos de Saidiya Hartman, Denise Ferreira da Silva, Carla Akotirene, Amanda Carneiro, Stela do Patrocínio, Hélio Menezes, Tavia Nyong’o, Thiago de Paula Souza e Jota Mombaça. Além disso, acho que precisamos ver, mas também ler, o que nos diz as artistas desta exposição. Ler o que nos diz “as palavras com ar” de Rebeca Carapiá, as teorias sobre o conceito das “coralidades” de Raylander Mártis, estudar as “pedagogias do meme” da biarritzzz e aprender essa língua a ser inventada por Diego Araúja.