Pivô entrevista Bruno Mendonça

10/12/2018, 12:08

Leandro Muniz – Gostaria que você começasse comentando sobre sua formação.

Bruno Mendonça – Minha primeira formação é em Comunicação Social, especificamente em Jornalismo, depois que fui estudar Artes Visuais. Fui fazer Comunicação por medo de ir direto para a Literatura ou para as Artes Visuais, mas sempre tive uma relação com a escrita, especialmente com a poesia. Também trabalho com produção cultural e esse é meu ganha pão, além de ser artista. Logo no começo da faculdade trabalhei no MAM, então não tive uma trajetória como a maioria das pessoas da minha classe, que foram para o jornalismo ou para a publicidade. Fui trabalhar em uma instituição de arte e aquilo foi uma escola.  Eu tinha algum background em arte, porque minha família sempre me alimentou com isso, mas durante o estágio que iniciei minha produção como artista e que surgiu meu interesse por crítica e curadoria. Tudo que aprendi sobre arte, foi trabalhando com arte e em contato com as pessoas do meio, por exemplo, fiquei próximo do Wesley Duke Lee e passava tardes tendo aulas com ele – eu era muito jovem na época.

Mais tarde, em 2010 quando estava no Mestrado, minha produção mudou bastante, passei a colocar mais peso nos textos, tanto nos que realizava como artista, quanto no campo da crítica de arte, que inclusive começou de forma muito experimental, realizando textos para exposições de outros artistas amigos meus. Sinto que a minha produção com crítica de arte, por muito tempo, acabou aparecendo mais que meu próprio trabalho artístico, que circulava num sistema mais alternativo. As pessoas me conheciam como crítico, curador ou produtor. Acho que isso tem a ver com uma questão de linguagem, pois vejo que artistas que flertam com a Literatura ou a Música, enfim, produções de caráter híbrido, às vezes demoram um pouco mais para circular nos circuitos institucional e comercial, embora essa pesquisa entre linguagens sempre tenha sido meu interesse, pois acho que a arte tem uma membrana mais permeável, menos rígida como em outras áreas.

LM – Você atua como artista e curador ao mesmo tempo. Que passagens, pontos de contato e divergências você vê entre essas duas práticas?

BM – Cada sistema tem suas metodologias e especificidades. Eu já questionei muito o papel da curadoria e da crítica de arte, mas quando percebi que podia começar a brincar um pouco com as metodologias, determinadas estruturas e sistemas, a partir de um exercício da escrita, comecei então a ter uma relação mais livre com esses campos. Entendi esses múltiplos interesses quando passei a pensar que ambas as práticas são relacionadas com uma ideia geral de texto, num sentido conceitual mesmo, “tudo pode ser considerado texto”. A curadoria pode ter uma dimensão narrativa, poética, ficcional, assim como o trabalho de crítica também pode ser poesia, se a interlocução com o outro artista permitir. Nesse sentido, uma curadoria pode ser pensada como um texto escrito no espaço a partir das obras, às vezes nem precisa de texto de parede, se a narrativa for potente. Gosto de pensar nesse conceito de “texto expandido”, como se a exposição fosse um texto que se ganhou espacialidade.

Mesmo tendo uma relação com a o universo acadêmico, gosto de pensar a curadoria e a crítica de arte como possibilidades de criação artística mesmo e não de teoria ou de algo excessivamente discursivo. Na verdade, eu fiz poucas curadorias, mas as poucas que fiz acho que tentei exercitar isso. Tenho mais propriedade para falar sobre crítica, pois faço com mais frequência. Meu trabalho no CCSP, por exemplo, era mais de crítica e de produção do que de curadoria.

LM – Você falou das diversas aparições do texto e, de fato, percebi que nos textos que você escreve, ou que escreveram sobre sua produção, são recorrentes palavras relacionadas à multiplicidade: multimídia, “artista etc” e assim por diante. Também vejo que seu trabalho pode ter várias materializações. Quando assisto uma apresentação sua, sinto que o som, a imagem projetada, a palavra falada e o gesto não se sincronizam. Como você pensa a ideia de multiplicidade, considerando-a como um dado formal do seu trabalho e, de certo modo, como um aspecto da vida contemporânea?

BM – Seja como artista, produtor, crítico ou curador, sempre fui uma pessoa de trânsitos e fui levando isso cada vez mais para o meu trabalho. Eu ando por vários lugares, vou de sarau a festival de música experimental. Por mais que também trabalhe com um circuito institucional de arte, a performance que faço numa festa gay como o L’Amour, por exemplo, é a mesma que faço na Trienal do SESC. Claro que existem nuances e mudanças de tom, mas é o mesmo texto. O conceito do Ricardo Basbaum de “artista-etc”, para mim, cada vez faz mais sentido, pois se pensarmos essa noção de “etc.” para além do sistema da arte, chegamos às discussões atuais sobre a questão queer, por exemplo, entre outras discussões identitárias e de linguagem relevantes hoje. Para mim, não faz mais sentido o lugar das gavetas ou das prateleiras.

A minha geração já é bastante múltipla, mas existe uma ambiguidade, porque essa multiplicidade gera muitas vezes dispersão, o que pode ser pensado como um “sintoma”. No entanto, a multiplicidade e a dispersão são potentes, quando mantêm o estado experimental, laboratorial e processual das coisas. Por isso não gosto do termo “work in progress” porque acho que tudo está sempre em processo e não em “progresso”… Seria melhor “work in process”, porque para mim arte não tem a ver com progresso.

LM – Você tem utilizado o “spoken word”, uma linguagem em que textos, letras de músicas e poemas são falados em apresentações e performances. Gostaria que você comentasse as especificidades dessa linguagem.

BM – O spoken word é uma linguagem esquisita, porque não tem definição e não cabe em categorias.  As pessoas que optam por essa linguagem, podem vir de diferentes áreas, como artes visuais, literatura, teatro, dança, ou música. A Laurie Anderson, por exemplo, já é tudo isso misturado. O meu trabalho sempre teve relação com a música, com o pós-punk, a cultura de zines, que, para mim, têm a ver com o spoken word.  Faço isso desde o começo dos anos 2000, mas ficava em uns guetos de poesia, música experimental, coisas de garagem. Essa palavra é difícil, mas era underground.

Pensando mais diretamente sobre meus textos, eles são uma miscelânea. Misturo coisas que escrevo com citações e apropriações de outros autores. Adoro a prática da colagem e de fazer versões também, como pegar poesias, textos e letras de músicas bem conhecidas, até clichês, e dar um twist para virarem outra coisa. Fiz isso, por exemplo, no filme “Heaven” do Luiz Roque, em que encerro cantando uma música da Cher de um jeito muito estranho. Acho que a ideia de fazer um remix, também é própria do meu trabalho e talvez da nossa cultura em geral.