Pivô entrevista biarritzzz

21/09/2020, 10:56

Styling Mariana Souza e Ariana NualaStyling Mariana Souza e Ariana Nuala

biarritzzz quer entrar no seu universo. Ela transita entre a cena de música, festas e arte contemporânea, sempre fazendo uso da internet para a disseminação de suas ideias. É irônica para falar de assuntos sérios – como as devastações sobre povos, saberes e ecossistemas causadas pela ação/razão do homem branco na busca incansável pelo progresso. EU NÃO SOU AFROFUTURISTA, o mais recente trabalho da artista, é um álbum musical feito também de imagens, pensando especialmente para os meios digitais. O projeto integra a exibição virtual Os dias antes da quebra, projeto de Diane Lima para o Pivô Satélite.

 

Leo Felipe: O afrofuturismo explora interseções entre a diáspora africana e a tecnologia, lançando mão de recursos característicos da ficção especulativa. Qual o motivo de sua desconfiança em relação a este tema?

 

biarritzzz: É difícil imaginar novas realidades, ou mesmo entender nossas próprias realidades, quando partimos de conceitos criados num outro lugar – físico, geográfico, social, epistemológico. Ao afirmar que não sou afrofuturista, não estou me colocando em lugar de desconfiança à corrente estético-filosófica, mas sim pontuando que não acredito que ela possa dar conta do que se trata meu trabalho – e nem deveria. Pontuo que a realidade da qual estou partindo, negro-indígena do norte e nordeste do Brasil, deve cunhar seus próprios novos conceitos, e não se deitar para conceitos mais uma vez norte-americanos ou europeus em busca de legitimidade. Fui considerada afrofuturista, mas por quê? Por que pessoas negras que trabalham com a tecnologia disponível estariam automaticamente dentro dessa corrente? Em que momento afirmei que estava falando de futuro? E as linguagens com que trabalho, a GIF arte, a videoarte, que estão aí desde os anos oitenta e noventa, e ainda mais para trás, o que dizem sobre “futuro”? Eu não quero falar de futuro, ainda estou ligando os infinitos pontos perdidos entre o passado e o presente. Filosoficamente falando, critico a próprio noção de tempo a partir do Chronos, o deus grego que comia seus filhos. O tempo por aqui nunca foi linear, cronológico. Então mais uma vez, não estou falando do conceito de tempo ocidental. Entendo que o afrofuturismo chega no Brasil após a popularidade causada pelo mainstream hollywoodiano do filme Pantera Negra. Ora, se estou falando de decolonialidade, de pensar a partir de nós, e não a partir da branquitude europeia ou norte-americana, como posso mais uma vez achar que tais termos dão conta do que se está sendo pensado e feito por aqui? Para o meu trabalho, pelo menos, a conta não fecha. Em nenhum momento imagino um futuro, pelo contrário, estou ainda tentando reconectar os laços e os dados do passado para entender esse nosso presente – e me fazer presente. Se hoje sabemos que para os povos originários tanto de América quanto de África o tempo é circular, espiralar; um futuro como algo que vem depois de um presente, e este vindo depois de um passado, assim sucessivamente, não é uma realidade que condiz com o que eu estou dialogando. O futuro, o progresso, o desenvolvimentismo, nunca foram dissociados de um evolucionismo, ora filosófico, ora assumidamente eugenista. E toda essa conta sempre significou três coisas: genocídio, ecocídio e epistemicídio. Eu ainda quero andar para trás.

CABACA

LF: Em EU NÃO SOU AFROFUTURISTA você remixa uma miríade de sons, textos e imagens que trazem referências das mais diversas: a rapper M.I.A., Baile da Gaiola, John e Yoko, cultura ameríndia e cultura da internet. Quais são os principais pontos de entrada para o “universo de biarritzzz”? 

 

b: Tento falar do mundo ao meu redor e do que toca as pessoas pois entendo que assim me comunico melhor. Antes de pensar sobre termos como cultura do remix ou hipermídia, sinto que essa maneira de pensar sempre esteve presente nessa geração pós internet a qual me incluo. Dessa maneira, não é difícil entender a criação a partir da paródia, da mimetização. Essa linguagem da imitação do mainstream e seus códigos fazem parte do meu trabalho assim como de toda uma geração que precisa partir de alguma referência para entrar no mar de informação que é o mundo conectado. Por isso, partir do reconhecível, do brega, do pop, dos ícones, como entrada para um diálogo, uma ponte para falar do que sinto que preciso, parece uma maneira de me aproximar de diferentes públicos e universos. Então talvez a pergunta não seria como entrar no meu universo, mas sim como eu estou tentando entrar no seu!

 

LF: O álbum traz diversas colaborações (além da presença de seu alter ego bia hits), e você é integrante de um coletivo em Recife, o Escapa. Você poderia comentar sobre sua opção por se envolver em processos colaborativos?

 

b: Não vejo o estar em processos colaborativos como uma opção quando pensamos em trabalhos que dialoguem com o meio social. Na verdade, em lugares com pouco recurso e estrutura, se juntar é a única saída. Em todo o momento, nesses 7 anos de carreira, estive em parcerias, majoritariamente com pessoas racializadas e dissidentes de gênero. Nos aquilombamos para sobreviver e para não falarmos sozinhes. Estamos tentando furar bolhas.

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LF: Você também afirma que “ironia é coisa séria”. Qual a importância do humor em seu trabalho?

 

b: O humor, o sarcasmo, a ironia são hoje as linguagens mais caras do planeta. As vejo assim a partir de uma compreensão do meme como maior potência comunicacional do mundo contemporâneo. A ironia consegue atingir lugares que o texto dado não pode chegar. A ironia é dúbia, e por si só já parte de dois lugares, geralmente considerados opostos, para transmitir uma mensagem. O falar de uma coisa para falar de outra é uma estratégia que tenho utilizado bastante, entendendo a linguagem artística como esse lugar que te permite transitar entre códigos. Hoje vejo um esvaziamento poético no que diz respeito a falar de assuntos sérios unicamente através de uma linguagem da militância. O que coloco é que linguagem é ferramenta, mas também prisão, e no mundo algorítimico em que vivemos, falar apenas para quem já está habituado com aquele código não é algo que está nas nossas mãos. O que lemos, vimos e aplaudimos é milimetricamente direcionado, controlado e monitorado. Assim, gerar confusão de valores e seduzir mensagens com humor, aparentando ser o que não é, é um caminho bastante poderoso.

 

LF: Achei bastante interessante sua proposta de que o meme, essa entidade replicante que se dissemina pelas redes sociais, possa ser usado como recurso pedagógico. O que são as Pedagogias do Meme? 

 

b: Pedagogias do Meme é um termo que desenvolvi inicialmente para entender como os memes, tal qual um código de comunicação, são recebidos como mensagens que ensinam, literalmente propagando uma função pedagógica. Uma mensagem transmitida rapidamente como um meme, considerado a menor partícula de informação da internet, e por isso mesmo aquela que propaga exponencialmente, como um vírus; uma imagem de baixa “qualidade” feita por não profissionais e exatamente por isso com alto valor de credibilidade e identificação; é um tipo de mensagem que atinge lugares onde nenhuma outra mensagem consegue chegar (seja o texto, o documentário, o filme ou qualquer outro instrumento midiático pedagógico usado até então). Além disso, e ao mesmo tempo, fui percebendo a linguagem do meme não só como um veículo para informações que ocasionalmente ensinam (comportamentos, conceitos, visões de mundo e até acontecimentos cotidianos), mas como uma cultura que tem, ela própria, muito para nos ensinar. Hoje entendo que muitos códigos e valores propagados por essa cultura do faça-você-mesmo-imagens-de-baixa-ou-pouca-qualidade-profissional-engraçadas-ou-não reflete o melhor do mundo da internet e suas contribuições, hoje tão obscurecidas pelos poderes colonialistas e imperialistas que insistem em dominar essas “terras”.