Ícaro Vidal

28/01/2019, 12:14

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Os murmúrios da natureza e a vida cega de Martin Lanezan

O oráculo piedoso que intitula a exposição de Martin Lanezan foi extraído do poema “La boca”, no qual o poeta peruano José Watanabe descreve a interação do humano com a natureza a partir da imagem de um crânio de animal pré-histórico que teria ficado preso a um declive que conduz ao rio no qual o restante deste corpo provavelmente se diluiu. O vento, ao atravessar esta ossada, murmura sons, indecifráveis para a criança que se aproxima a fim de escutar o que este oráculo tem a dizer. A natureza ingressa na poética de Watanabe, como na de Lanezan, a partir de um lugar que nos parece irredutível à racionalidade ocidental. Não se trata aqui de uma natureza passiva que se deixa conhecer pelo cientista, descrever pelo poeta ou representar pelo pintor. Há uma agência dos elementos naturais que reverbera no abandono do antropocentrismo e na inscrição de Lanezan e de Watanabe em uma posição mais próxima àquela do xamã que a do cientista.

Já na recepção do espaço expositivo nos deparamos como uma espécie de prólogo à exposição. “Mesa com pássaro e tecido” (2016), uma pintura em acrílica sobre papel, condensa a intermedialidade complexa que atravessa a poética de Lanezan. Se pensada a partir da tradição pictórica ocidental, a obra poderia ser descrita como uma natureza morta, mas tal enquadramento negligenciaria o ecossistema no qual as obras de Lanezan tomam forma. A imagem que vemos contém precisamente o que o título anuncia: uma mesa com pássaro e tecido. Em várias pinturas de Lanezan, quase todas elas sobre papel, observamos esta curiosa presença figurativa de elementos têxteis. Parece haver uma tensão entre esta escolha pelo papel como suporte e a presença ostensiva de tecidos, tanto de um ponto de vista figurativo no interior destas composições, quanto em uma série de objetos bordados e de ponchos que integram a exposição. Por que, então, não pintar sobre tela?

Esta aposta no papel como suporte da produção pictórica, entretanto, é absolutamente coerente, do ponto de vista material, com o caráter metaestável das obras de Lanezan. Há nesta escolha o abandono de um rigoroso controle sobre o resultado do trabalho, na mesma medida em que parece haver uma aposta no processo de produção e no caráter mutante deste material que mimetiza, em sua própria estrutura, a indiferença da natureza à vontade humana. Além dos elementos figurativos e das escolhas cromáticas que resultam nestas imagens, um olhar atento será capaz de reconhecer as transformações estruturais do suporte, provenientes de fatores tão diversos quanto o peso proveniente do acúmulo de camadas de matéria pictórica e a humidade do ar, que se inscrevem em rugosidades sobre as quais o artista tem pouco ou nenhum controle. Curiosamente, a única pintura sobre tecido apresentada em Oráculo Piedoso, “Manto Cobra” (2018), não resulta da sobreposição de camadas de tinta, mas de um processo de despigmentação com água sanitária, processo este que requer igualmente que o artista abdique de um lugar de controle, e que seja capaz de se inscrever na temporalidade da matéria, acompanhando e acolhendo suas transformações.

Este acolhimento poético da imprevisibilidade pode ser analogamente verificado nos bordados de Lanezan, que cristalizam as variadas tensões que os fios herdam da gestualidade do artista, sobre tecidos que assumem formas orgânicas. O não ocultamento do corpo a corpo do artista com estes materiais reforça o que o conteúdo figurativo de suas representações dá a ver: processos de sobreposição e de acumulação cujos resultados não são explicáveis pela soma de suas partes. Assim como os amuletos representados figurativamente nas pinturas, as obras de Lanezan assemelham-se a resíduos de rituais animistas, que apontam para uma dimensão espiritual da matéria. Mas não se trata aqui da produção de um inventário etnográfico ou formalista dos processos de assemblage com finalidades mágicas, como aqueles produzidos pelos povos originários e por várias tradições populares não ocidentais. Estas tradições não são o tema da pesquisa do artista, mas elas parecem fornecer os fundamentos metafísicos a partir dos quais Lanezan pensa os elementos constituintes da própria experiência estética: espaço, matéria, peso, equilíbrio, cor etc.

Lançando mão de técnicas e materiais muito diversos, o artista constrói uma cosmologia dinâmica, que atravessa mas não se esgota na objetualidade de suas obras. Os “Exercícios de Empilhamento” (2018), por exemplo, reiteram sua aposta na possibilidade de um equilíbrio que não implique o esgotamento dos potenciais de transformação do sistema. Os elementos heterogêneos que compõem as esculturas desta série permanecem unidos apenas pela força da gravidade e o título do trabalho parece indicar o caráter aberto da obra, cuja beleza não se limita às formas empilhadas mas encontra-se também neste exercício, necessariamente despido de ansiedade, de busca por um equilíbrio possível.

Este trabalho sobre as relações entre peso e equilíbrio reaparece na série de ponchos que o artista apresenta. Constituídos a partir de colagens de tecidos costurados à mão pelo artista, estes trabalhos remetem à dimensão mágica dos amuletos, e espacializam a imagem que vemos em “Com o Futuro nas Costas” (2017). Novamente, algo na fronteira do visível e do invisível dá-se a ver com a instalação destes ponchos no espaço. Através de um sistema composto por elementos heterogêneos (cordas, paus e pedras) estas imagens adquirem um corpo virtual, que se mantém suspenso graças ao jogo entre as diferenças de peso destes elementos. Mas esta constituição de um corpo virtual pelos ponchos instalados escultoricamente – “Poncho (Cavera)”, “Poncho (Ameixa)” e “Poncho (Limón)” (todos de 2018) – desaparece no “Poncho (Cabeça Vermelha)” (2018), que é exposto aberto, como uma pintura, e que tem sua imagem desnudada frontal e instantaneamente. A partir deste gesto, somos convidados a imaginar o corpo virtual que vestiria o “Poncho (Cabeça Vermelha)” e, simetricamente, as imagens que constituem os demais ponchos, e que apenas apreendemos parcialmente.

Apesar da consistência de sua construção cosmológica, Lanezan parece reconhecer que algo sempre irá escapar à linguagem. Parece haver uma aposta no mundo como excesso, testemunhada por essa natureza incapturável fora da magia. Há, no espaço expositivo, elementos que imprimem ritmo e presença sem, no entanto, serem apresentados como obras: as inscrições geométricas em uma das paredes da galeria e as mechas de crina de cavalo que pendem do teto ou compõem uma guirlanda permitem intuir que a cosmologia do artista, mais do que explicar, procura nos colocar em contato com este excesso não-linguístico do mundo. Como a criança que retorna crescida, ao final do poema de Watanabe, grata ao oráculo que, indecifrável por piedade, lhe permitiu viver uma “vida cega”, Lanezan parece apostar na cegueira de não saber o que virá como método de trabalho. Mas como a criança, o artista insiste, com curiosidade, na escuta disso que não entende.

 

ICARO FERRAZ VIDAL JUNIOR
Nascido em Niterói, RJ. Vive e trabalha em São Paulo e Curitiba.

É pesquisador, ensaista e curador independente. Graduou-se em Estudos de Mídia na Universidade Federal Fluminense, é mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em “Crossways in European Humanities” pelas Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Santiago de Compostela e Universidade de Sheffield. É doutor em “Cultural Studies in Literary Interzones” pelas Université de Perpignan e pela Università degli Studi di Bergamo, e em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é bolsista de pós-doutorado PNPD/Capes no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná. Recentemente realizou as exposições Natureza Sintética (Galeria do Instituto de Artes da UNICAMP, 2018), Superfícies sensíveis || pele | muro | imagem (Caixa Cultural Rio de Janeiro, 2018, co-curadoria com Laila Melchior), Gramáticas Infames do Medo (Blau Projects, 2017) e animal-estar (Galeria de Arte da UFF, 2017). Tem publicações em periódicos acadêmicos, revistas especializadas, catálogos de exposição e livros na América Latina e na Europa.