Pivô entrevista Pedro Victor Brandão

06/08/2018, 17:47

Leandro MunizGostaria que você começasse falando sobre sua formação.

 Pedro Victor Brandão – Minha formação foi mais a partir de experiências e cursos livres, do que no ensino formal. Comecei uma graduação em pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ, mas abandonei o curso em menos de um ano pela inviabilidade de cumprir uma grade horária integral. Segui então para a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde fiz vários cursos teóricos e comecei a desenvolver uma abordagem crítica em relação à minha produção, especialmente nas aulas de “Desenvolvimento de Projetos” do Franz Manata, entre 2007 e 2009. Em 2009 completei uma graduação politécnica em fotografia na Universidade Estácio de Sá, o que formalizou uma experiência prática que eu já tinha, pois aprendi a trabalhar com fotografia no laboratório dos meus pais, o F3, que fechou em 2004. Lá tive experiências em que mergulhei na imagem técnica com uma certa liberdade, dentro de um ambiente em que havia o acesso aos meios de produção (fazer as próprias químicas, calibrar ampliadores, fazer provas de cor, etc). Em 2010 participei da primeira seleção do programa “Aprofundamento” no Parque Lage, que funcionava como um ciclo de estudos avançados com orientação de Lívia Flores, Luiz Ernesto e Glória Ferreira.

 

Também considero a minha participação em coletivos como parte da minha formação, por terem sido um processo de escuta e troca. Nos últimos 10 anos, colaborei com OPAVIVARÁ!, Laboratório Tupinagô e Agência Transitiva, para nomear três, e cada um deles trouxe fortes experiências que marcaram minha trajetória. Outros dois momentos importantes foram a escola de verão do CAPACETE (2012) e a do Parque Lage (2015).

Procuro também estar sempre em formação, com estudos independentes que me colocam em alerta. Disso surgem novos interesses, principalmente nas áreas que envolvem cibernética, economia e sociedade.

 

LM – Você poderia comentar o projeto que enviou para o Pivô Pesquisa?

PVB – Enviei um projeto pensando em continuar minhas investigações sobre a ideia de “paisagem econômica” e também para produzir novos trabalhos da série Tela Preparada (2012)[1]. Comecei um conjunto novo dessa série a partir da apropriação de displays usados em estandes de conserto de telas de celulares, um tipo de lixo eletrônico abundante no Centro e na região da Santa Efigênia, próximos ao Pivô. Dentro dos circuitos eletrônicos que compõem as telas há metais raros como platina, paládio, ouro, prata, entre outros. Esse conjunto de trabalhos, chamado Sem Conserto, é uma arqueologia do descarte inapropriado. Através dessa apropriação e reapresentação das telas quebradas exatamente nos mesmos displays usados pelos ambulantes quero abordar um problema ecológico em uma perspectiva artística que contrapõe escassez e abundância.

Em São Paulo também realizei novas pesquisas relacionadas à distribuição de recursos e organizei uma nova edição da série Pintura Antifurto (2011) – reproduções de cédulas manchadas pelos dispositivos de segurança de caixas eletrônicos – em exibição na Villa Medici, em Roma até 15 de agosto, na exposição Take Me (I’m Yours)[2]. É a terceira edição desse trabalho, mas dessa vez imprimimos 50 mil cópias para serem distribuídas para o público. Elas são mostradas dentro e ao redor de dois caixas eletrônicos do Banco Popolare que sofreram explosões em tentativas de furto, trazendo um comentário sobre a ideia de violência econômica.

 

LM – Você mencionou sua experiência com o coletivo OPAVIVARÁ!, para o qual a ideia de participação, por exemplo, é central. Que desdobramentos você percebe em sua produção a partir de sua passagem pelo grupo?

PVB – O OPAVIVARÁ! foi um dos tantos coletivos em que colaborei. Minha passagem pelo grupo foi um período de intenso aprendizado em escutar, em agir, em lidar com o dissenso e também enxergar os limites da colaboração. Estive com eles entre 2007 e 2012 e desde o início o grupo segue fiel a seu objetivo de criar experiências relacionais com o uso de dispositivos e ocupações. O resultado alegre ou sensual é, na verdade, fruto de um forte comprometimento com experiências para além de objetos contemplativos e as ações do coletivo têm a capacidade de se comunicar com um público amplo.

Acredito que nós todos nos influenciamos mutuamente. Não existe uma oposição entre meus trabalhos individuais e minha passagem pelo grupo, apesar das formalizações distantes. O que há de “austero” e “crítico” nos meus trabalhos está relacionado com a minha vivência e com as influências que me atravessam. Nessas trajetórias passei a questionar, antes de começar um projeto novo, se o mundo realmente precisa de mais um trabalho de arte. As produções que mais me interessam são aquelas que possibilitam que o conhecimento atravesse diferentes sistemas e, para mim, o papel social do artista é visualizar como a arte pode interferir objetivamente na realidade.

 

LM – Em vários de seus trabalhos há o interesse por discutir questões econômicas, a circulação, distribuição e concentração de capital, o trabalho Pintura Antifurto,  que você mencionou anteriormente, por exemplo. O que interessa a você em discutir problemas relacionados à economia especificamente dentro do campo da arte?

PVB – Desde 2010 tenho me concentrado em uma certa imaginação especulativa a partir dos sujeitos e dos objetos de arte. Isso significa requalificar “especulação” para além das ideias de mercado e circulação de bens e enxergar o que venha a ser uma poética do capital. Tenho um grande interesse em instrumentos financeiros descentralizados como o bitcoin e outros algoritmos de criptografia avançada que utilizam a blockchain (ou cadeia de blocos, em português). Tem sido muito interessante participar da co-criação de um sistema que ainda está na sua infância com projetos como the þit, desenvolvido em parceria com a artista Maíra das Neves em 2013 e 2014. Nessa ocasião nós construímos mineradoras de criptomoedas e as máquinas ficaram instaladas num terreno semi abandonado. Criamos uma situação de autoprodução a partir de uma escultura financeira, fazendo surgir uma série de trabalhos que continuam a repercutir até hoje.

Procuro pensar arte como um espaço privilegiado para experimentações sociais, por onde temos a capacidade de antever contratos sociais que ainda não existem. Artistas, autores, pensadores e produtores de conhecimento que se valem da criação em geral podem ir com seus sujeitos ou objetos além da distopia presente, em que um dos problemas principais é a precarização galopante do que se tem chamado de “trabalhador cognitivo”. A crítica institucional me parece insuficiente para dar esse salto quando traz denúncias vazias, especialmente quando o discurso transformador é apropriado fora de um ideal comum, transformando o que seriam possíveis criações de mundos em mercadorias caras e muitas vezes inacessíveis.

Pensando o que pode haver de comum entre finanças e arte, sigo colaborado desde 2017 com a ECSA – a Economic Space Agency[3]. Temos trabalhado na formulação de alguns protocolos que desenvolvem espaços econômicos radicais a partir da reunião de artistas, cientistas e filósofos. Temos uma apresentação em um programa público na 10ª Bienal de Berlim[4] onde alguns desses protocolos serão abertos para os participantes.

 

LM – Um aspecto da sua produção que me chama a atenção é a alusão à pintura, tanto em títulos, como Tela preparada ou Pintura antifurto, quanto no posicionamento de alguns trabalhos na parede, mesmo que você trabalhe, basicamente com desdobramentos da fotografia, para qual a história da pintura foi importante na construção da iluminação, por exemplo. Como você pensa essas alusões à pintura e como isso se relaciona com os seus interesses por discussões econômicas e sociais no campo da arte?

PVB – Penso que há um questionamento da tradição da pintura na arte a partir desses trabalhos que você cita. Muitas séries se realizam com a linguagem fotográfica, mas trazem imagens residuais de outros procedimentos – cultivo de fungos, processamento digital, perturbações na paisagem, quebra por impacto ou explosão, interceptação, apropriação e interpretação de dados brutos, etc. O que há de “pintura” nisso é tratar a realidade de maneira plástica. Gosto frequentemente de colocar a visualidade e a confiança das imagens em cheque, tanto para mim quanto para o leitor. Muitas das pinturas que vejo serem produzidas hoje partem do aparelho fotográfico para existir, busco então traçar o caminho inverso para reunir um repertório crítico e visual que precipita discussões envolvendo outros campos do conhecimento.

 

LM – Você mora e trabalha no Rio de Janeiro. Como foi trabalhar em São Paulo e como você enxerga a cena de arte aqui, considerando seu período na residência?

PVB – São Paulo tem cenas infinitas, como um estímulo permanente. Além do ateliê no Pivô, que era sempre muito movimentado pelas visitas de convidados e discussões entre os residentes, consegui acompanhar um pouco do Ateliê397, com a exposição QUE BARRA!, tendo o marco de maio de 1968 como partida, alguns debates na Tapera Taperá e também a Cryptorave. Meu ateliê costuma ser o meu computador, às vezes até moro nele. Nesse sentido, foi um privilégio poder trabalhar no Pivô durante esses três meses, de março a junho.

Nos últimos anos passei por várias residências artísticas e o Rio de Janeiro funciona como um ponto de retorno. Volto depois de cada saída, embora nos últimos anos praticamente não tenha trabalhado por lá por várias razões – sendo a falência das instituições uma delas. O Rio traz esse esgotamento que se encaixa muito bem num conceito formulado pelo Sérgio Bruno Martins, “a visualidade dócil”[5]: um regime de consumo da paisagem que mistura nostalgia, degradação e uma hipnose coletiva.

 

 

[1] Ver mais em http://terremoto.mx/prepared-screen/

[2]  Exposição coletiva organizada por Hans Ulrich Obrist, focada em trabalhos que podem ser distribuídos para o público https://www.villamedici.it/altri-eventi/take-me-im-yours/

[3] https://www.economicspace.agency

[4] http://www.berlinbiennale.de/calendar/im-not-who-you-think-i-m-not-27-cryptoeconomy

 

[5] Ver https://blogs.oglobo.globo.com/prosa/post/o-rio-a-transformacao-dos-conflitos-em-paisagem-396849.html