Pivô Entrevista

Pivô Entrevista Gui Mohallem

25 set, 18h48


 

Jéssica Varrichio: A obra O Imanifesto teve uma de suas primeiras montagens no Ateliê Aberto do Pivô Pesquisa de 2016. Eu senti que era uma obra para ser vista com uma pinça. Depois da hipnose inicial vem um desejo de ir cavando essas imagens, tentar descobrir da onde elas vieram, encontrar a primeira imagem ao ir pinçando as camadas, numa obsessão pelo mito da origem.

Nessa instalação são três vídeos que retratam paisagens (céu e nuvens, rio e floresta, tronco de árvores) há um jogo dialético do tempo da natureza com o tempo da montagem do cinema. Você pode comentar sobre o processo de mescla desses dois tempos nessa obra?

 

Gui Mohallem: O imanifesto é um trabalho de instalação com três projeções, cada uma com um único vídeo em loop. Confesso que tenho dificuldade de identificar um tempo de montagem de cinema ali, sabe? Justamente porque acaba sendo a negação dessa montagem. Em vez de sequenciar uma imagem depois da outra, acabo por misturar uma imagem dentro da outra, várias imagens com vários tempos submergindo e emergindo durante o looping. Quanto ao outro tempo, o da natureza, ele não me interessa tanto quanto o tempo daquele que vê. Porque o mais importante é provocar no outro essa posição ativa, citando Tarkovski, de participar do trabalho e de contribuir pra construção do sentido da obra.

 

JV: Suas imagens tem um tom muito característico, elas sempre puxam pro verde e azul com tons terrosos. Como você interfere nas imagens?

 

GM: Até Welcome Home essa intervenção era sempre muito radical, trazendo pras imagens a sensação do paraíso reencontrado, mesmo que, pra isso, essa cor fosse totalmente construída, folha por folha, numa experiência muito mais próxima da pintura. Percebo hoje que na própria vivência que tive no Santuário onde o trabalho foi feito existiu uma certa dose de idealização, portanto é justo que as imagens reflitissem essa relação com a experiência, porque esse entendimento veio depois. Em Tcharafna, por exemplo, realizado no Líbano, existia uma busca ativa pela não idealização, por um encontro entre o horror e a poesia. Portanto, as imagens não poderiam chegar no seu maior potencial, não fazia sentido deixar aquelas paisagens deslumbrantes.

 

Cada trabalho vai pedindo uma construção específica. Em ensaio para a loucura foi muito importante ter tão presente e fresco na memória as pinturas da fase negra do Goya.

 

Essa paleta que você identifica – e muitxs também o fazem – é algo que eu não reconheço, é estranho. Pra mim cada trabalho é muito diferente e muito específico.

 

JV: Como é a relação entre vídeo e fotografia? Existe algum tipo de hierarquia entre eles? Algum dos dois te dá mais liberdade?

 

GM: Acho que a liberdade não está tanto no suporte mas como você decide usá-lo. Acho que o vídeo está mais desafiador nesse momento e, por isso mesmo, mais sedutor pra mim.

 

As possibilidades de construção com o vídeo hoje são talvez até maiores que as fotografia. Primeiro porque no vídeo está mais evidente a dimensão do tempo, que é de certa maneira um limite da fotografia; mas sobretudo porque ainda resta ao vídeo parte do status que a fotografia já perdeu – e que o vídeo vai perder logo logo – o de que aquilo que a gente vê na tela aconteceu, o “isso foi”, do Barthes.

 

JV: O seu trabalho parece estar cheio de memória. Como é a escolha do lugar fotografado?

GM: As minhas imagens não costumam ser planejadas, na sua maior parte acontecem como uma urgência. As escolhas que faço são mais em que situações vou me colocar, qual vivência vou mergulhar, entende? Porque é nessas vivências que a imagem pode acontecer. Tento ter a câmera por perto sempre, mesmo que ela raramente saia da mochila. Depois de algum tempo eu olho pro material e tento fazer sentido dele, numa mistura entre entender e criar sentido ao processo vivenciado.

Nos trabalhos mais recentes tem aparecido um entendimento novo, de um vetor que talvez sempre estivesse presente, que é o da vontade de preencher simbolicamente os buracos das histórias, primeiro pessoais, e agora do Outro.

 

JV: O seu trabalho parece captar sempre algo fugidio seja retratando a natureza seja retratando pessoas. O que significa para você a relação que se estabelece com o outro intermediada pela câmera? Como é a sua abordagem com outro?

 

GM: Desde sempre tive PAVOR do pitoresco, do olhar etnocêntrico que olha o outro sob os valores do meu grupo social e o exotiza. Essas imagens me arrepiam e me dão raiva, porque é um tipo de dominação política desleal. Eu, que tenho os meios de produção da imagem, escolho o lugar de valor desse outro, que é diferente de mim. Isso é uma atitude covarde justamente porque o sujeito se esconde e objetifica o outro, que é tão complexo e voluntarioso quanto ele, achatando essa existência em um aspecto exótico (sempre em relação a si).

 

Nos trabalhos anteriores a Welcome Home o Outro servia muito como um repositório das minhas projeções, dos meus próprios sentimentos. Assim, fotografava o Outro pra falar dos meus fantasmas. (Em certo sentido essa abordagem é também covarde, mesmo que menos canalha). No Santuário onde realizei o Welcome Home, existe uma filosofia muito linda de entendimento do outro como sempre sujeito, nunca objeto. Um encontro é o encontro de dois sujeitos, de dois desejos. E cabe a esses sujeitos negociar seus desejos. Essa contraposição filosófica entre sujeito/sujeito vs. sujeito/objeto me trouxe uma transformação profunda, que acaba impregnando esse trabalho e os seguintes. Acho que esse trabalho é sobre a descoberta do Outro, e sua imagem síntese é aquela da figura pintada de azul, requisitada pelo fotografado.

 

JV: Como a palavra entra no seu trabalho? Em Tcharafna, por exemplo, há partes sem tradução, entrevistas. No Diáspora #1 são imagens fundidas com uma fala ao fundo. Ela sempre vem da oralidade ou tem alguma relação com a literatura?

 

GM: Ela vem sobretudo de um sentimento de que a imagem não dá conta, seja ela fixa ou em movimento. Mas acho que a solução não vem somente da palavra. O som de cada vídeo não existe para confirmar algo visto na imagem, não é pra ser diegético. O som vem pra tensionar com a imagem, pra acrescentar um ponto de conflito, e a partir dessa combinação, criar outro sentido pra quem vê.

 

JV: Você é muito engajado em questões LGBT que não tem como escapar da discussão de identidade. Isso atravessa o seu trabalho? De que maneira?

 

GM: No Santuário em que foi realizado o Welcome Home, duas vezes por ano, se juntam 700 pessoas queer em celebrações de origem celta, que remetem aos ciclos naturais. Junto a essas pessoas aconteceu pela primeira vez um encontro com um pertencimento até então desconhecido pra mim. Essa experiência provoca uma profunda transformação em minha prática e acaba se configurando em uma vontade/necessidade de agir política e coletivamente. Esse desdobramento começa a ser visível nas produções feitas na Revista Geni, (2013-2016) e, de maneira mais ou menos evidente, acaba atravessando todos os trabalhos seguintes. Na sequência, participo da criação do #VoteLGBT e, de uma maneira mais interseccional, do #MeRepresenta, ambos em plena atividade.

 

JV: Vou te propor um desafio, o de tratar de uma memória por palavras e não imagens. Sua primeira exposição foi Ensaio para a loucura em Nova York, há 9 anos. O que você lembra do processo como um todo?

 

GM: Me lembro de sentir um peso enorme no processo, uma insegurança com os resultados. Me lembro das investigações de suporte, da petulância com a construção de textos, me lembro sobretudo de um entendimento que veio durante a exposição: que mais do que mostrar um trabalho pronto, aquela – assim como todas as exposições que se seguiram – era uma oportunidade de ouvir o outro, de entender como o outro reagia a minha provocação. Me lembro muito claro desse arco, de uma vontade de impressionar, de fazer perfeito, pra um sentimento de gratidão pela oportunidade de ouvir e crescer.