Pivô entrevista Daniel Lie

19/04/2018, 19:23

Leandro Muniz- Gostaria que você começasse comentando sobre sua formação. 

Daniel Lie – Eu estudo por meio de viagens e rituais de matrizes africana, afro-brasileira e asiática, nos quais acredito. Troco muito com mulheres artistas e pessoas não binárias, pois fui educado afetiva, ética, profissional e economicamente por mulheres.

Estudei licenciatura na UNESP numa pedagogia horizontal, onde duas pessoas trocam. A opção que se apresentou para mim foi buscar uma formação pública e a entrada na licenciatura me deu consciência civil e social em relação ao fazer artístico, me deu um sentido de responsabilidade com a sociedade, pois eles pagaram meus estudos. Lecionar é um retorno direto, mas me pergunto: como fazer isso por meio do trabalho artístico?

Tenho pesquisado tecnologias sociais e a pobreza é uma delas. Minha família veio de uma situação de pobreza, então foi uma batalha eu decidir ser artista. Desde a infância tive o apoio dos meus pais, frequentei cursos de desenho, mas não tive um referencial profissional próximo. Havia boatos sobre uma produção artística na minha família da Indonésia. Ano passado fui para lá pesquisar minhas raízes e descobri que meu avô foi um grande quadrinista, já tinha visto uma história em quadrinhos dele, mas não tinha noção da importância, também percebi o quão extraordinárias eram as habilidades da minha avó.

Tenho trabalhado com elementos perecíveis e isso traz um dado imprevisível. Mas na exposição “Filhxs do fim”, na Galeria Casa Triângulo, vejo o encerramento de um ciclo de dois anos de pesquisa, porque o inesperado está virando uma linguagem e gostaria de dar mais condições para elementos incontroláveis. Não sei o que vou fazer daqui para frente, mas estou interessado em dança e performance.

 

LM – Você trabalhava na organização da festa Voodoohop. Como você relaciona a passagem entre o universo da noite, cheio de materiais sintéticos e seu interesse por materiais orgânicos? 

DL – Eu precisava experimentar diversas linguagens diretamente com as pessoas. Participava de festas desde que entrei na universidade, mas depois da graduação, onde tive uma relação forte com teoria, fiquei mais envolvido com isso. Também é interessante pensar a balada como lugar de possibilidade de performance, porque todas as condições estão dadas.

Em 2015, fiz três individuais simultâneas, na Galeria Triângulo, no CCSP e na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no projeto chamado “Trilogia”. Foi uma grande oportunidade, mas tive um desgaste, que não entendia, já que  sempre quis realizar esses trabalhos nesses lugares.

Em minhas pesquisas sobre estudos energéticos, passei a pensar num retorno para a terra, um assunto muito falado por populações que estão fora da lógica hegemônica da cidade. Estava estudando a passagem do tempo e incorporei isso como pilar central do meu trabalho, pensando na morte como processo necessário vital. Então eliminei os materiais sintéticos da minha produção, porque são produzidos tecnologicamente e feitos para durar. Para mim, são materiais ligados ao homem, no sentido patriarcal. Então passei a usar apenas materiais perecíveis e técnicas como a bioconstrução, por exemplo, no trabalho “Assumimos de agora em diante”, feito no Chile com plantas locais (cactos de São Pedro) que depois foram doadas para aos moradores da região.

 

LM – “Podre show” é um dos trabalhos da “Trilogia Podre”. É um título que me parece emblemático pois, por um lado, a palavra “podre” diz respeito à matéria orgânica em transformação, por outro, “show” remete ao mundo do espetáculo. Na exposição “Filhxs do fim”, também percebo essa tensão na organização da instalação, ao mesmo tempo em que os materiais são orgânicos, a disposição deles no espaço tem algo cênico. Como você pensa a relação entre organicidade e espetáculo?

DL – Existe uma tensão entre a densidade da matéria e a forma como isso é apresentado pelas mídias sociais ou no trabalho em si. Talvez a apresentação do meu trabalho seja pop, mas os conteúdos e a matéria são de outra ordem.  O pop está na minha vida desde criança e, na verdade, é uma ferramenta de dominação cultural, mental e uma tecnologia colonial. Falo de cultura pop pensando nos mecanismos que essa cultura  utiliza para fixar ideologias nas subjetividades, a música pop por exemplo  utiliza repetições, palavras e ritmos que remetem a relações sexuais. Na imagem, temos a grande referência do Andy Warhol, mas penso hoje a imagem pop como aquela que ganha muita disseminação, o meme, por exemplo. Acho que aí existe uma tensão: pois geralmente o pop vem com imagens muito sedutoras, mas os materiais que apresento não tem essa sedução e muitas vezes são o oposto.

Na Trienal Frestas do SESC fiz um trabalho chamado “PASSALOGO”, que foi comissionado para uma ponte estaiada, o que, a priori, eu não queria, porque as estruturas arquitetônicas verticais são símbolos fálicos e monumentos à sociedade patriarcal. O trabalho debochava disso numa escala espetacular. Voltava ao meu trabalho de estreia no circuito de arte que foi o “Escroto” no Redbull Station, com plantas penduradas e coisas apodrecendo.

Nos últimos dois anos tenho subsidiado minha vida como artista com materiais que vão para o descarte. Ao mesmo tempo em que isso é interessante, o capitalismo fagocita novas estruturas e me pergunto em que medida estou corroborando com isso.

Minha relação com a exposição “Filhxs do fim”, por exemplo, é a de alguém que vê uma performance. Sempre que vou lá, aconteceu algo novo: fungos cresceram, brotos desenvolveram, alguns pereceram, os cheiros vão se alterando. Os elementos vivos estão mudando e aquilo é uma performance de não humanos, o que volta para a ideia de espetáculo e de cena.

“O Centro de Morte para os Vivos” em Viena era uma  performance contínua. Existia um acolhimento, pedíamos para as pessoas deixarem seus bens materiais do lado de fora e que não fosse usada linguagem verbal, embora outras formas de comunicação fossem bem vindas. Lá dentro eu estava constantemente meditando, para ajudar a manter os níveis energéticos, e havia uma instalação sonora da artista Vivian Caccuri. Havia uma proposta de vivência e tenho vontade de realizer este trabalho em outros lugares. Meus trabalhos não são repetidos, mas este é uma plataforma contínua realizada com outros artistas que pesquisam a ideia de morte.

Foi a primeira vez que levei práticas da licenciatura para a prática artística. Na pedagogia libertária falamos de professor e estudante ambos trocando e aprendendo. Se levarmos essa experiência de horizontalidade para a experiência artística, o papel de artista e de espectador se diluem.

Ultimamente, estou mais ligado às artes do corpo do que às instituições de  artes visuais, porque vejo mais possibilidade de mudança política, emotiva e subjetiva nessas experiências.  Tenho pensado meu trabalho num hibridismo de linguagens e estou planejando coreografias para objetos. Como fazer um objeto ter presença sem um corpo humano lá dentro? Por isso gosto de elementos vivos, mortos ou pós morte.

 

LM – Uma mudança que percebo é como seus primeiros trabalhos lidavam apenas com os objetos eles mesmos, mas você passou a incorporar suportes bidimensionais em bordados, estandartes e uma série de impressões em tecidos por sublimação. Como se deu a passagem do uso exclusivo dos objetos para a incorporação das imagens e dos suportes bidimensionais na sua prática?

DL – A volta das imagens vem como resposta ao cubo branco e à forma como consumimos imagens no Instagram e nas mídias sociais.  Há um prazer de fazer também, porque minha formação artística  inicial foi em desenho. Mas ainda é uma crise, porque a possibilidade de criar objetos duráveis me aflige. Muito do cerne da minha pesquisa veio de uma visita à casa do meu avô, passados 5 anos da casa fechada. Vi o espaço tomado pelo tempo, a biblioteca comida por cupins, objetos deteriorados pela umidade e raízes entrando na arquitetura. Aquela imagem foi apocalíptica pra mim, foi iconoclasta, porque me dá aflição que a matéria perdure para além de um período.

Na Indonésia aprendi a técnica de batik,  uma técnica tradicional de pintura com cera quente, na qual se tinge o tecido e depois se retira a cera. Os estandartes em “Filhxs do fim” são feitos com essa técnica, mas ainda quero pesquisar mais pigmentos naturais, pois existe uma culpa sobre o impacto socioambiental gerado na produção de tecidos.

 

LM – Você lida com coisas vivas e existe uma dimensão performática em suas aparições públicas com maquiagens e roupas específicas. Podemos dizer que sua própria biografia é tema dos projetos “Lie Liong Khing”, que partia da nome do seu pai, ou “Lindinalva e o Bálsamo”, no qual você performava com a sua avó, no hall central do CCBB.  Como você pensa a relação entre lidar com coisas vivas e incorporar, de certo modo, sua própria vida em seu trabalho?

DL – Para mim, é uma relação entre micro e macro, porque muitas vezes o micro já diz sobre o macro. Quando estudo as histórias da minha família existe um reflexo da intimidade numa experiência maior. Pesquiso relações com o outro e talvez a forma de fazer isso seja com as pessoas mais próximas, o que retorna de uma forma política.

Eu trouxe histórias íntimas porque isso alimenta perguntas sobre a existência, meus ancestrais, porque eles fizeram movimentos migratórios e quais questões sociais e políticas rebatem neles. Isso me traz consciência histórica e sociopolítica, que resulta num processo de racialização da minha parte. Minha família veio da Indonésia para o Brasil em 1959 e talvez tenha sido a primeira. São de um contexto Indochinês, então lá eles já eram considerados mestiços.

Tento entender porque eles saíram de lá e vieram para o Brasil, porque fui criado no centro de São Paulo, enquanto minha família foi criada na zona leste, que reflexos subjetivos e psíquicos temos em relação a essa tecnologia de pobreza e imigração, por fim, qual a construção da sociedade em que estou.

Volta na pergunta sobre como fazer uma devolutiva social com o trabalho de arte. Começamos com as pessoas que estão próximas de nós e a partir disso vamos expandindo. O meio de arte me possibilita realizar isso, mas não estou interessado apenas nesse campo e, sim, numa experiência de vida.

É importante realizar uma performance para a minha avó, uma migrante pernambucana, analfabeta, cujo conhecimento é da tradição oral. A linguagem com que trabalhamos é completamente potente e democrática. Se eu apresento imagens e experiências, o outro pode entrar em contato consigo mesmo, o que já é um primeiro passo.