Ensaios Escritos

Thiago Barbalho

25 mai, 7h43

pós-palavra: pré-história: antirrazão

 

começo um dia de trabalho na Pivô Pesquisa

 

Chegar às onze horas. Tocar a campainha, anunciar meu nome, empurrar a porta de metal, agora destravada, fechar a porta, subir as escadas. Chegar ao estúdio às onze e quatro. Largar a mochila no chão, passar os olhos pelos objetos, canetas e desenhos, pegar a caneca e ir até a copa fazer café. Esperar a água ferver andando em círculos pelo espaço, chutando de leve o chão, o ar, as paredes. Talvez ouvindo música. Talvez não. Assobiar. Passar o café. Levar a caneca cheia de café até a varanda, sentar no banco encostado à parede, cruzar as pernas, dar um gole. Olhar o real. Perceber com os olhos viciados e cheios de conceitos inescapáveis, mas um pouco mais leves do que mais tarde, quando muitas horas de lucidez terão deixado um rastro de cansaço de memórias e significados. Por enquanto, perceber que a realidade é uma formação de camadas de eventos e objetos deixados. Perceber que a realidade não tem substrato, é toda camadas. Prédios recortados por outros prédios, uma árvore que se enfia entre um pedaço de concreto e outro, escadas, pessoas descendo escadas, gente indo a algum lugar, pombos, lojas, ruas, calçadas, cachorros, nuvens. Não saber o que vai vir ao desenho. Pensar que o trabalho com o desenho consiste em fisgar do inexistente alguma sombra de sua fluidez e trazê-la até o existente. Talvez como uma lembrança modificada, talvez como um espírito que incorpora e manda uma mensagem criptografada. Pensar que o desenho é a zona em que qualquer interpretação, desrazão, crença, loucura, pode ser exercida. Pensar que, no desenho, a imposição de camadas de formas e cores trazidas do inexistente ao existente pode, com alguma sorte, se transformar em impacto ou, ainda melhor, em espanto, e o espanto, por sua vez, servir de sussurro sobre a existência dessas formas que não existiam, mas agora estão aqui, e se agora existem é porque já existiam em algum lugar. Entender então que o desenho é o relato de uma viagem entre mundos. Aceitar que o gesto das mãos com as canetas sobre o papel é um exercício em que a geometria não material se comunica com nossa necessidade de enxergá-la. Pensar o desenho como a prova da materialidade do imaterial. Fantasmagoria. Aparição. Geoglifos. Hieróglifos. Saber que isso está com mais força em imagens do que em palavras. Entender então que, apesar de o trabalho do desenho ser similar à escrita, que com a mão desenvolve a produção de alguma coisa que nos reflete e amplia, o desenho tem a vantagem de não usar palavra, esta sempre sedenta por sentido, exausta dos clichês, das ironias, das ignorâncias viciadas, da sede de argumentar e convencer. Pensar que o desenho extrapola a ordem. Nenhuma palavra daria conta disso sem se contaminar com o desgaste com que a receberíamos. Aceitar, e louvar, que o desenho não tem sujeito, verbo, predicado, e que suas fronteiras são mais subversivas e apontam para o futuro, onde palavra nenhuma será necessária. E apesar disso, saber que o desenho é um desdobramento da linguagem escrita, cujo apoio estamos agora prestes a abandonar, obsoleto. E esse desdobramento se dá na medida em que a palavra chega ao seu limite e já é inútil. Uma escada pela qual subimos e logo poderemos jogar fora. Saber que uma transformação está se dando na linguagem e na necessidade humana de dizer. Que agora é como se o nosso desenvolvimento histórico fosse um reflexo de trás para a frente de si mesmo, uma espiral na melhor das hipóteses, e que já vamos abandonar a confiança nas palavras e suas explicações e sua relevância, e vamos voltar a nos deixar nortear por rabiscos nas paredes, cavernas de hoje, sombras capturadas por câmeras, formas no espaço, fotografias que se apagam em segundos, vídeos que evaporam em vinte e quatro horas, desenhos que mofam, tintas que desbotam, telas que desabam em atentados terroristas, instalações que somem num terremoto. Parar. Dar uma trégua ao pensamento. Voltar ao olho que vê o mundo daquela varanda, perceber que o café acabou enquanto olhava o mundo, sair da varanda, caminhar até o estúdio. Saber que a rede que avança no desconhecido e traz o traço e as cores ao desenho se chama não exatamente espírito, não exatamente sonho, não exatamente dom, não exatamente deus, não exatamente pesquisa, mas antes de tudo imaginação, dádiva sem autoria.



Ensaios Visuais

Denis Rodriguez e Leonardo Remor

05 abr, 18h30

EM NOME DA ARTE

O que buscam esses comerciantes ao colocarem a palavra ARTE no letreiro de seus estabelecimentos comerciais além do habitual fetichismo das mercadorias ali vendidas? Por que um padeiro de Belém batiza seu negócio como PÃO COM ARTE? Seria em razão dos altos custos do negócio localizado na fachada de um shopping center? Arte é gourmet?

“O valor jamais é uma propriedade inerente aos objetos, mas um julgamento que os sujeitos fazem sobre eles”, já explicava Georg Simmel em sua “A filosofia do dinheiro”, de 1907. O sistema de arte entende essa lógica capitalista de que o valor de um objeto vai além do seu valor de uso e de troca. Sabemos também que esse valor simbólico é atribuído tanto ao objeto de arte e seu criador quanto ao seu consumidor, o colecionador e as instituições.

Neste sentido nos perguntamos: estas fotografias apresentadas nesta página ilustram algum aspecto do nosso país? Nos dão alguma pista para pensar qual é o valor da arte fora do seu sistema? Ou refletem apenas a literalidade, a banalização e o descaso do lugar da arte e do artista no Brasil?

EM NOME DA ARTE é uma coleção sem fim, iniciada em 2014 na Bahia e que reúne fotografias feitas em diferentes cidades e Estados brasileiros. O ensaio aqui apresentado é um recorte dessa coleção, que atualmente conta com mais de cem imagens. Para esta primeira apresentação, seguiremos uma lógica de adição: sete novas imagens serão acrescentadas a cada semana, durante um mês. É um ensaio em construção como a própria coleção.

 

Denis Rodriguez e Leonardo Remor

Abril de 2017

 

*Essa postagem integra a residência de Leonardo Remor no Programa Pivô Pesquisa, financiada pelo projeto Não sou daqui, nem sou de lá: gestão, curadoria e residência artística em rede, contemplado pelo Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais 12ª Edição. O artista propõe uma residência compartilhada, através de encontros, conversas e apresentação de trabalhos. Ele nunca estará sozinho, sempre em diálogo com outros artistas convidados. A residência compreende um espaço expandido de tempo, uma pesquisa que acontece tanto física quanto virtualmente. Através de artistas, obras e ideias, Remor busca refletir sobre o lugar da prática da arte e a sua institucionalização. Denis Rodriguez é o primeiro convidado e juntos eles também coordenam o espaço Galeria Península, localizada em Porto Alegre, Brasil.



Ensaios Visuais

Ana Mosquera

15 mar, 17h20

A Balada da Singularidade

-Ana Mosquera-

 

Em 2016 como parte do programa de imersão do Pivô Pesquisa em associação com a Fundação Cisneros eu convidada a vir a São Paulo por duas semanas. O programa não tem uma agenda específica, foi proposto a mim ter uma experiência em São Paulo e ficar hospedada no edifício Copan, um colosso modernista desenhado por Oscar Niemeyer nos anos 60, onde o Pivô é localizado.

Por alguns dias não puder evitar o passeio pelos corredores do Copan em busca de alguma forma de orientação espacial nessa complexa megalópoles. Meu primeiro instinto foi focar em centenas de imagens do Instagram marcadas como Edifício Copan. As imagens se repetiam aos montes como se a repetição fosse o princípio ativo que criou a diferença nessa repetição gigantesca.

Era uma ilusão esperar uma revelação da constituição social desse lugar por meio dessas imagens, mas o que eu sabia era que a forma como a informação era gerada tinha uma particularidade em comparação com experiências similares de análise que eu tive na Venezuela. Deleuze menciona em Diferença e Repetição que a repetição é mediação e síntese, nesse caso a repetição representou uma síntese dos processos de representação, mediação e consumo. Então, eu me interessei em estudar representação como um resultado da repetição.

Eu suponho que o Copan pode representar para qualquer novo visitante algo absoluto e temporário, um lugar capaz de se duplicar e se desdobrar; imerso na constante multiplicação dos seus próprios elementos. Porém, a repetição aqui não é uma generalização, nem semelhança, mas a confluência entre o ideal e o real. No Copan a vida imita representação enquanto ela espera ser representada novamente.

Neste ponto, decidi arquivar todas as imagens que eu encontrei no Instagram, no início elas parecem estar dentro de três categorias gerais: o terraço – a fachada – o estilo de vida; mas, novamente, após essas categorias, surgiram outras como aquelas que mostraram a forma de S da fachada, o Edifício Itália visto do terraço, a menina nua em uma cama olhando a vista para a cidade. A generalidade tornando-se constantemente singularidade pela repetição e a singularidade tornando-se novamente generalidade.

Fotografia como forma de representação aspira à conquista da diferença, à captura do imensurável, à transmissão do infinito, mas esse fator de repetição atuou no Copan como um agente livre que diversifica e multiplica tudo, criando padrões e grupos que, quando repetidos, mudam e criam novas singularidades.

Eu decidi então revisitar os lugares mais fotografados e os fotografei de novo, colocando as imagens em cima das tiradas do Instagram como referência que melhor representasse as categorias que eu encontrei.

A medida em que eu revisava e agrupava as imagens, alguns padrões emergiram, eles poderiam ser por similaridades de cor, conteúdo ou ângulo da foto. Eesses padrões se expressam por uma série de pontos brancos sobre a imagem. No entanto, estes padrões não permaneceram estáticos, sempre em mutação e transformado ao longo do tempo, então surgiu a necessidade de expressar a ideia de tempo de alguma forma.

Para este efeito, os padrões foram copiados em uma folha de música para formar uma balada automática, a repetição se torna ritmo ao longo do tempo, e semelhanças são ouvidas como grupos simultâneos de notas.

 



Ensaios Visuais

Renata de Bonis

22 fev, 13h36

fóssil-drama

 

A pulsação constante do centro da cidade de São Paulo me levou a selecionar estas imagens, pensando a repetição, o ritmo e o tempo como princípios elementares à experiência natural e humana, presente desde o batimento cardíaco e a respiração, até os sistemas orbitais dos astros que definem nossos calendários e ciclos cotidianos diários. Estas fotografias foram feitas em uma viagem de estudo de campo no interior de São Paulo durante a minha residência no Pivô Pesquisa no segundo semestre de 2016.

As imagens retratam formações rochosas com relevância geológica, compostas por repetidas sucessões de camadas e sedimentações rítmicas. Entre as camadas de rocha são encontrados fósseis de animais invertebrados, suas marcas e vestígios de movimentação e deslocamento de seus corpos, que datam 280 milhões de anos atrás, quando a região passou por um longo período de glaciação em seus lagos e rios.

A vida em uma metrópole como São Paulo torna extremamente difícil o entendimento de tal dimensão temporal, entretanto podemos traçar paralelos entre as formações de rochas sedimentares e os infinitos edifícios erguidos no centro da cidade, o maçante acúmulo de camadas de materiais como cimento, concreto, gesso, tinta, piche, estruturas metálicas que formam apartamentos, salas, conjuntos, sobreposições de andares, de vidas, de rotinas distintas, uma sobre a outra, e assim caminhamos de modo cíclico até tudo tornar-se uma peculiar formação urbanística, endurecida e rígida, com nossos passos congelados em vestígios fossilizados.

Renata De Bonis

Fevereiro de 2017



Ensaios Visuais

Wojtek Kostrzewa

23 jan, 18h15

Entre 19 de setembro e 21 de dezembro eu participei do programa Pivô Pesquisa, onde eu tive a possibilidade de executar projetos no espaço público de São Paulo.

Meu projeto inicial não tinha nenhuma forma ou planejamento particular. Minha participação assumiu a máxima abertura à situação assim como à redefinição da minha linguagem artística. A ideia principal oscilava em torno da noção de ser novo em um lugar, trazendo a posição de “Visitante” em uma interpretação mais abrangente. Logo após a minha chegada, entendi que trazer a minha narrativa para uma cidade de escala tão grande com tantos problemas visíveis exigiria uma mudança na minha estratégia.

A maior parte do tempo eu passei na rua, observando a realidade e arquitetura de São Paulo em vez de ficar no ateliê. Minha intenção era trazer trabalhos que pudessem interagir com a cidade. Durante o período de residência, eu realizei dois projetos no espaço público.

O primeiro deles intitulado “Possibilidade de diálogo” foi baseado em formas observadas nas ruas e se referia à falta de comunicação real entre os grupos de interesse. O segundo, intitulado “Ponto de referência”, estava ligado diretamente à escala da cidade e à possibilidade de de se perder na confusão – tanto física quanto politica. Ambos os projetos foram criados como partes da cidade para serem corroídos e por fim desaparecerem na paisagem de São Paulo.

Além das intervenções, eu tive a ótima oportunidade de me envolver em um diálogo com o artista Marcelo CIdade e em uma colaboração com a artista Clara Ianni.

Os materiais que eu recolhi durante as minhas caminhadas na cidade estão incluídos no meu projeto fotográfico intitulado “Nossas cidades foram construídas para serem destruídas”.

O Pivô preparou ótimas condições para o meu trabalho e me ajudou com as conexões na cena de arte local. A possibilidade de viver e trabalhar em São Paulo, mesmo que por um período curto de dois meses foi ótimo pra mim. Por muitos anos tenho me interessado pela arte contemporânea brasileira; poder contribuir nesse cenário artístico foi de grande importância para meu crescimento artístico.

 

A residência do artista Wojtek Kostrewa foi realizada com o apoio do IAM – Culture.pl



Ensaios Visuais

Marco Maria Zanin

13 dez, 12h03

Os trabalhos realizados durante a residência artística no Pivô surgem a partir dos estudos de textos de Georges Didi-Huberman e Aby Warburg, que identificam nos restos, nos escombros, as características do ‘sintoma’: o sinal de algo que sobrevive em profundidade, uma pulsação que revela a existência de outras temporalidades submersas sob a dominante. O objetivo é tornar possível o acesso através de ‘imagens dialéticas’, capazes de revelar a força anacrônica do elemento considerado como pertencente ao passado, e ressignificá-lo. Mais uma vez, a tentativa de criar um caminho possível é gerada através de um curto-circuito entre as poderosas transformações da cidade de São Paulo e o olhar de um italiano nascido e criado em uma cultura que, ao mesmo tempo que preserva seu passado, de outro não é totalmente capaz de fazê-lo reviver no presente.



Ensaios Visuais

Nicolau Vergueiro

19 out, 19h32

O ensaio visual é uma combinação de esquemas para novos desenhos compostos de imagens de referência – recortes de jornal, stills de filmes, gráficos, pinturas históricas, etc., que estão rearranjados e combinados com materiais leves como sacolas de plástico e tecidos. A partir de fontes variadas, essas imagens retratam personagens e cenas misteriosas/intrigantes, aqui reinventadas como narrativas que transpuseram seu caráter de produção material e cultural para uma apresentação visual (quantitativa) de informações.



Ensaios Visuais

Gaia Fugazza

19 ago, 20h03

A artista italiana Gaia Fugazza apresenta uma sequência de detalhes de trabalhos em que usa como referência imagens roubadas das câmeras de segurança da escola infantil em que deixou seus filhos durante o período em que esteve em residência. Uma frase irônica abre a sequência de imagens: o que é perdido quando abrimos mão da privacidade em nome da segurança.