Ensaios Visuais

Ana Mosquera

15 mar, 17h20

A Balada da Singularidade

-Ana Mosquera-

 

Em 2016 como parte do programa de imersão do Pivô Pesquisa em associação com a Fundação Cisneros eu convidada a vir a São Paulo por duas semanas. O programa não tem uma agenda específica, foi proposto a mim ter uma experiência em São Paulo e ficar hospedada no edifício Copan, um colosso modernista desenhado por Oscar Niemeyer nos anos 60, onde o Pivô é localizado.

Por alguns dias não puder evitar o passeio pelos corredores do Copan em busca de alguma forma de orientação espacial nessa complexa megalópoles. Meu primeiro instinto foi focar em centenas de imagens do Instagram marcadas como Edifício Copan. As imagens se repetiam aos montes como se a repetição fosse o princípio ativo que criou a diferença nessa repetição gigantesca.

Era uma ilusão esperar uma revelação da constituição social desse lugar por meio dessas imagens, mas o que eu sabia era que a forma como a informação era gerada tinha uma particularidade em comparação com experiências similares de análise que eu tive na Venezuela. Deleuze menciona em Diferença e Repetição que a repetição é mediação e síntese, nesse caso a repetição representou uma síntese dos processos de representação, mediação e consumo. Então, eu me interessei em estudar representação como um resultado da repetição.

Eu suponho que o Copan pode representar para qualquer novo visitante algo absoluto e temporário, um lugar capaz de se duplicar e se desdobrar; imerso na constante multiplicação dos seus próprios elementos. Porém, a repetição aqui não é uma generalização, nem semelhança, mas a confluência entre o ideal e o real. No Copan a vida imita representação enquanto ela espera ser representada novamente.

Neste ponto, decidi arquivar todas as imagens que eu encontrei no Instagram, no início elas parecem estar dentro de três categorias gerais: o terraço – a fachada – o estilo de vida; mas, novamente, após essas categorias, surgiram outras como aquelas que mostraram a forma de S da fachada, o Edifício Itália visto do terraço, a menina nua em uma cama olhando a vista para a cidade. A generalidade tornando-se constantemente singularidade pela repetição e a singularidade tornando-se novamente generalidade.

Fotografia como forma de representação aspira à conquista da diferença, à captura do imensurável, à transmissão do infinito, mas esse fator de repetição atuou no Copan como um agente livre que diversifica e multiplica tudo, criando padrões e grupos que, quando repetidos, mudam e criam novas singularidades.

Eu decidi então revisitar os lugares mais fotografados e os fotografei de novo, colocando as imagens em cima das tiradas do Instagram como referência que melhor representasse as categorias que eu encontrei.

A medida em que eu revisava e agrupava as imagens, alguns padrões emergiram, eles poderiam ser por similaridades de cor, conteúdo ou ângulo da foto. Eesses padrões se expressam por uma série de pontos brancos sobre a imagem. No entanto, estes padrões não permaneceram estáticos, sempre em mutação e transformado ao longo do tempo, então surgiu a necessidade de expressar a ideia de tempo de alguma forma.

Para este efeito, os padrões foram copiados em uma folha de música para formar uma balada automática, a repetição se torna ritmo ao longo do tempo, e semelhanças são ouvidas como grupos simultâneos de notas.

 



Ensaios Visuais

Renata de Bonis

22 fev, 13h36

fóssil-drama

 

A pulsação constante do centro da cidade de São Paulo me levou a selecionar estas imagens, pensando a repetição, o ritmo e o tempo como princípios elementares à experiência natural e humana, presente desde o batimento cardíaco e a respiração, até os sistemas orbitais dos astros que definem nossos calendários e ciclos cotidianos diários. Estas fotografias foram feitas em uma viagem de estudo de campo no interior de São Paulo durante a minha residência no Pivô Pesquisa no segundo semestre de 2016.

As imagens retratam formações rochosas com relevância geológica, compostas por repetidas sucessões de camadas e sedimentações rítmicas. Entre as camadas de rocha são encontrados fósseis de animais invertebrados, suas marcas e vestígios de movimentação e deslocamento de seus corpos, que datam 280 milhões de anos atrás, quando a região passou por um longo período de glaciação em seus lagos e rios.

A vida em uma metrópole como São Paulo torna extremamente difícil o entendimento de tal dimensão temporal, entretanto podemos traçar paralelos entre as formações de rochas sedimentares e os infinitos edifícios erguidos no centro da cidade, o maçante acúmulo de camadas de materiais como cimento, concreto, gesso, tinta, piche, estruturas metálicas que formam apartamentos, salas, conjuntos, sobreposições de andares, de vidas, de rotinas distintas, uma sobre a outra, e assim caminhamos de modo cíclico até tudo tornar-se uma peculiar formação urbanística, endurecida e rígida, com nossos passos congelados em vestígios fossilizados.

Renata De Bonis

Fevereiro de 2017



Ensaios Visuais

Wojtek Kostrzewa

23 jan, 18h15

Entre 19 de setembro e 21 de dezembro eu participei do programa Pivô Pesquisa, onde eu tive a possibilidade de executar projetos no espaço público de São Paulo.

Meu projeto inicial não tinha nenhuma forma ou planejamento particular. Minha participação assumiu a máxima abertura à situação assim como à redefinição da minha linguagem artística. A ideia principal oscilava em torno da noção de ser novo em um lugar, trazendo a posição de “Visitante” em uma interpretação mais abrangente. Logo após a minha chegada, entendi que trazer a minha narrativa para uma cidade de escala tão grande com tantos problemas visíveis exigiria uma mudança na minha estratégia.

A maior parte do tempo eu passei na rua, observando a realidade e arquitetura de São Paulo em vez de ficar no ateliê. Minha intenção era trazer trabalhos que pudessem interagir com a cidade. Durante o período de residência, eu realizei dois projetos no espaço público.

O primeiro deles intitulado “Possibilidade de diálogo” foi baseado em formas observadas nas ruas e se referia à falta de comunicação real entre os grupos de interesse. O segundo, intitulado “Ponto de referência”, estava ligado diretamente à escala da cidade e à possibilidade de de se perder na confusão – tanto física quanto politica. Ambos os projetos foram criados como partes da cidade para serem corroídos e por fim desaparecerem na paisagem de São Paulo.

Além das intervenções, eu tive a ótima oportunidade de me envolver em um diálogo com o artista Marcelo CIdade e em uma colaboração com a artista Clara Ianni.

Os materiais que eu recolhi durante as minhas caminhadas na cidade estão incluídos no meu projeto fotográfico intitulado “Nossas cidades foram construídas para serem destruídas”.

O Pivô preparou ótimas condições para o meu trabalho e me ajudou com as conexões na cena de arte local. A possibilidade de viver e trabalhar em São Paulo, mesmo que por um período curto de dois meses foi ótimo pra mim. Por muitos anos tenho me interessado pela arte contemporânea brasileira; poder contribuir nesse cenário artístico foi de grande importância para meu crescimento artístico.

 

A residência do artista Wojtek Kostrewa foi realizada com o apoio do IAM – Culture.pl



Ensaios Visuais

Marco Maria Zanin

13 dez, 12h03

Os trabalhos realizados durante a residência artística no Pivô surgem a partir dos estudos de textos de Georges Didi-Huberman e Aby Warburg, que identificam nos restos, nos escombros, as características do ‘sintoma’: o sinal de algo que sobrevive em profundidade, uma pulsação que revela a existência de outras temporalidades submersas sob a dominante. O objetivo é tornar possível o acesso através de ‘imagens dialéticas’, capazes de revelar a força anacrônica do elemento considerado como pertencente ao passado, e ressignificá-lo. Mais uma vez, a tentativa de criar um caminho possível é gerada através de um curto-circuito entre as poderosas transformações da cidade de São Paulo e o olhar de um italiano nascido e criado em uma cultura que, ao mesmo tempo que preserva seu passado, de outro não é totalmente capaz de fazê-lo reviver no presente.



Ensaios Visuais

Nicolau Vergueiro

19 out, 19h32

O ensaio visual é uma combinação de esquemas para novos desenhos compostos de imagens de referência – recortes de jornal, stills de filmes, gráficos, pinturas históricas, etc., que estão rearranjados e combinados com materiais leves como sacolas de plástico e tecidos. A partir de fontes variadas, essas imagens retratam personagens e cenas misteriosas/intrigantes, aqui reinventadas como narrativas que transpuseram seu caráter de produção material e cultural para uma apresentação visual (quantitativa) de informações.



Ensaios Visuais

Gaia Fugazza

19 ago, 20h03

A artista italiana Gaia Fugazza apresenta uma sequência de detalhes de trabalhos em que usa como referência imagens roubadas das câmeras de segurança da escola infantil em que deixou seus filhos durante o período em que esteve em residência. Uma frase irônica abre a sequência de imagens: o que é perdido quando abrimos mão da privacidade em nome da segurança.



Ensaios Escritos

O novo, o mesmo e o outro

02 ago, 12h58

Caroline Carrion / 17.07.2016

“Projeto Piauí” foi uma exposição coletiva de Alexandre Canonico, Bruno Dunley, Isabel Diegues, Luis Barbieri, Marina Rheingantz, Mauro Restiffe e Paloma Bosquê realizada no Pivô (São Paulo) em 2016, após uma expedição do grupo ao Piauí, da Serra das Confusões ao mar. Mais que apresentar a exposição, este texto pretende conversar com ela e com eles, esses que a fizeram.

 

  1. Espaço [Paisagem]

Acostumamo-nos àquilo que se repete. O que está sempre lá naturaliza-se, deifica-se, torna-se simultaneamente invisível e inescapável. O hábito é a morte da sensibilidade.

A paisagem, como gênero pictórico, popularizou-se de tal forma que domina de cursos de pintura para amadores às esquinas da Praça da República, com seus artistas de rua. Ela não é, porém, tão óbvia quanto pode parecer. O processo histórico de formação da paisagem, ou seja, da transfiguração pelo nosso olhar da natureza em espaço digno de representação, em assunto em si, está atrelado ao desenvolvimento de mecanismos técnicos – da criação da tinta em tubo à janela da locomotiva e à máquina fotográfica –, à processos geopolíticos – como a formação de Estados nacionais e a necessidade de desenvolver um imaginário visual coletivo – e, claro, de desdobramentos intrínsecos àquilo que convencionou-se chamar de história da arte.

Mas, por hábito, esquecemos. Por hábito, tomamos a paisagem como algo dado, inclusive paramos de registrá-la quando nos tornamos familiarizados com ela. Deixamos de ver os arranha-céus de São Paulo, a imponente feiura de seu caos arquitetônico, o pouco que sobrou da Mata Atlântica ao fundo. O frescor do olhar estrangeiro – estrangeiros que foram 6 dos 7 membros do Projeto Piauí quando se mudaram para a capital paulista (um ainda o é, já que vive no Rio) – não é capaz de perdurar muito. Não há nada mais bruto que o poder avassalador do cotidiano.

A cegueira não é, no entanto, permanente ou universal. Esse mesmo grupo, talvez imune a suas cidades, fez-se comitiva e rumou ao Piauí. Lá, não esperaram uma das profecias mais famosas do imaginário brasileiro concretizar-se, fizeram eles mesmos o sertão virar mar através de seu trajeto. E o deslumbramento com o renascimento da sensibilidade para o entorno pode ser sentido em toda sua potência na exposição que se fez depois, através da presença avassaladora de paisagens, sejam elas imagens visuais ou mentais (não podemos esquecer, afinal, o belo diário de Isabel Diegues, capaz de transportar-nos todos para onde e ao lado de quem não estivemos).

Na entrada da exposição, uma lembrança: os desenhos de Luis Barbieri (ao lado de Isabel, o único não-artista do grupo). Essas não-obras de arte dão o tom de entrelaçamento entre arte e vida que marca a experiência, praticamente enunciando que a expressão estético-visual não é domínio exclusivo da classe artística. Os desenhos delicados e despretensiosos de fragmentos de paisagens ou cenas da viagem são exibidos sobre uma mesa, como documentos ou arquivo, em disposição radicalmente distinta à das obras de arte, que repousam em seu esplendor museológico contra a parede branca ou sobre pedestais. O formato de vitrine também é utilizado para parte das fotografias (sempre excepcionais) de Mauro Restiffe. São peças de pequenas dimensões, lampejos do trajeto, suas terras, seus encontros, suas gentes. A separação entre registro e obra não é estanque. Tudo é memória, tudo tem valor estético.

Além de Mauro (a discussão sobre o lastro fotográfico no real é interminável por algum motivo, afinal), é nos pintores do grupo, Marina Rheingantz e Bruno Dunley, que o impacto da paisagem e sua história – incluindo as pinturas rupestres de sítios arqueológicos locais – aparece com mais força, provavelmente pela própria natureza de sua mídia de escolha. Com parte dos trabalhos produzidos in loco e parte já de volta a São Paulo, as obras, até então inéditas, ao mesmo tempo em que dão a sensação de continuidade de suas pesquisas recentes, carregam um dado de frescor. Enquanto nas pinturas e desenhos de Bruno percebem-se influências do informalismo e do primitivismo associadas à abstração (cuja tradição é tão forte no Brasil) e com forte presença das pinturas rupestres e cores e pigmentos locais, os trabalhos de Marina são facilmente reconhecidos pelo seu particular tratamento da figuração e pela expressão gestual que marcam sua produção.

 

  1. Tempo [Experiência]

O press release avisa: a exposição não se coloca como resultado da viagem. Tem razão. Experiências não resultam; elas perduram, desdobram-se, transformam-se. Apesar de nosso desejo de ordenar a vida e por mais que a sociedade tecnocrática insista em nos convencer do contrário, não há nenhuma matemática regendo as consequências de nossas ações. Não há uma lei universal da razão teleológica a garantir que tudo tem propósito e objetivo. Tampouco existe fim. Nada termina – isso é ilusão de edição cinematográfica. A vida segue sem cortes. Arrisco o palpite de que o Grupo Piauí entendeu que não se escapa à continuidade.

Vê-se na exposição o novo e o mesmo. As esculturas e objetos de Paloma Bosquê e Alexandre Canonico dão continuidade à sua pesquisa formal e de materiais. Os artistas têm em comum o desenvolvimento de obras em que a geometria da forma é minada pelas imperfeições da matéria e, no caso de Paloma, pelo processo artesanal de criação. Mas seus trabalhos não passaram imunes ao Piauí e são fortemente informadas pela experiência, por suas cores, formas e matérias, que se sustentam sem a necessidade de um atestado de origem. Suas vivências foram recodificadas e reinscritas em seus contextos subjetivos: enquanto nas esculturas de Alexandre pode ser sentida uma apropriação narrativa do contexto vivido, nas obras de Paloma aparecem pela primeira vez materiais trazidos do sertão, apresentados em composições inéditas dentro de seu corpo de trabalho.

O maior impacto, ou pelo menos o mais direto, parece se dar nas fotografias de Mauro Restiffe, que em grande parte abandonou seu característico preto e branco para explorar o domínio da cor. Verdes, amarelos e azuis, ao lado de seus conhecidos cinzas, conferem um tom nostálgico às imagens, ao que contribui seu sofisticado uso da granulação. Mesmo em meio ao sublime da paisagem vertiginosa, as cores e texturas garantem algum intimismo ao que foi, afinal, uma experiência entre amigos, e coloca estas imagens em um tempo que parece outro, antigo, ou talvez fora do tempo mesmo.

 

  1. Adendo [Recepção]

Se optei por relatar minhas impressões e reflexões de forma tão livre, ao invés de linha após linha lapidadas pela rigidez de um artigo crítico, é por respeitar a natureza dessa viagem, dos afetos e dos desejos desse grupo de amigos que se uniu para explorar a alteridade dentro de sua própria identidade nacional. A exposição que ocupou o Pivô era múltipla, livre das amarras do rigor narrativo ou conceitual. Encaixá-la em categorias filosóficas ou históricas seria violentá-la, colocá-la entre grades não sem antes inventariá-a e devidamente etiquetá-la. A vida merece mais que isso.

 

 

 

*Caroline Carrion nasceu em Jundiaí e vive e trabalha em São Paulo (SP) como crítica e curadora. Graduada em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e graduanda em Filosofia pela mesma instituição, também estudou Management et Communications Intercuturelles na Université Paris IV (Sorbonne), França.



Ensaios Visuais

Guilherme Ginane

19 jul, 18h53

O artista Guilherme Ginane aproveitou o convite do Blog do Pivô para fazer um Ensaio Visual mostrando parte dos bastidores de sua pintura: os livros que estuda e informam sua pesquisa, e que também são usados como caderneta de estudos. Seja de arte ou literatura, os livros de Ginane apresentam resquícios dessa convivência, recebendo respingos de tinta e servindo como suporte para anotações e desenhos.